The Lost Boys, Os Garotos Perdidos : uma carta de amor ao cinema de Joel Schumacher
- Fefa

- Aug 12, 2021
- 7 min read
One thing about living in Santa Carla i never could stomach: all the damn vampires.

O que aconteceria se a história de Peter Pan, o garoto eternamente preso na mesma idade e aparência que se recusa a crescer, fosse transportada para uma trama sobre vampiros que nunca envelhecem e estão sempre em busca de membros novos para seu grupo? A ideia inicial de Os Garotos Perdidos era pegar essa trama e torná-la vampiresca com um clima mais infanto-juvenil, mas com um diferencial suficiente para atrair a atenção de Joel Schumacher, diretor responsável por entrar no meio do caminho da produção e tê-la feito girar para uma direção muito mais interessante, estilosa e oitentista.

Depois de me tornar adulto e revisitar muitos dos desenhos que eu assistia na infância, eu passei a enxergar e traçar uma linha muito tênue entre clássicos infantis e o horror, separando-os muitas vezes apenas pelo direcionamento intencional. É claro que na maioria das vezes um desenho não é produzido intencionalmente com o objetivo de causar pesadelos em criancinhas, mas existem várias possibilidades de subverter uma ideia de roteiro que apresenta um garoto que nunca cresce, mantendo a mesma voz, a mesma cara, o mesmo corpo e sem nunca sair da sua idade pois nunca irá envelhecer - e veja só, ele não é um twink. Pegar uma história como a do Peter Pan e levá-la adiante para uma ambientação em outro contexto, mirando em um público diferente e situando a trama em outro gênero pode fazer com que surjam abordagens pessimistas, dramáticas, fantasiosas e horripilantes - não preciso nem dizer quantas vezes me deparei com manchetes contando “a verdadeira história dos contos infantis” nos meus anos de internet, e aposto que você também. Embora o motor inicial de Os Garotos Perdidos tenha sido esse ensejo de associar um garoto imortal com vampiros imortais que andam em grupo, o já mencionado Joel Schumacher não era muito fã da ideia e decidiu pegar a visão mais realista do projeto, juntar com o tema vampírico, montar um grupo de personagens extremamente carismáticos que se comportam no avesso da humanidade e, então, abordá-los dentro de um filme repleto de roupas de couro, brincos, correntes, motos em disparada, adolescentes nerds que vivem no mundo dos quadrinhos e jovens adultos bonitos.

Eu assisti Os Garotos Perdidos esse ano após uma onda de obsessão por A Hora do Espanto que ocupou minha cabeça por semanas e me fez sair à procura de filmes que carregassem a mesma aura. E de fato ambos os filmes possuem um espírito semelhante, embora sigam outros caminhos no seu desenrolar. Em comum, esses dois filmes possuem apenas a presença de atores em seu auge de beleza: o Chris Sarandon faz A Hora do Espanto rondar em torno de sua persona sedutora, enquanto aqui nós temos um time de vampiros atraentes formado por Kiefer Sutherland, Jason Patric, Brooke McCarter, Billy Wirth, Alex Winter e Jami Gertz - e confesso que até os irmãos Frog tem seu charme estranho para mim, mas ignorem essa última parte. E claro, eles também contam com diretores encarregados de destinarem seus vampiros para uma direção muito mais divertida e interessante, se afastando da normatividade compulsória: o Tom Holland usa e abusa do humor, do colorido e da discoteca para criar o A Hora do Espanto, lançado apenas dois anos antes em 1985, enquanto o Joel foi a pessoa quem direcionou um projeto bem estranho no ano de 1987 para algo muito mais sexual, sensual, oitentista, divertido, nostálgico e reconhecível dentro de sua carreira.

A filmografia do Joel Schumacher foi do céu ao inferno enquanto ele esteve vivo. Os Garotos Perdidos está no paraíso do histórico do cineasta e carrega alguns dos melhores símbolos que o Joel gostava de tratar em suas produções, muitos dos quais ele transportou para suas entradas na franquia Batman que foi dividida pelo diretor com o Tim Burton. Na outra esfera da recepção popular, Batman Eternamente e Batman & Robin estão no inferno perante o público e à crítica, mas moram no meu coração junto com o Charada do Jim Carrey e a Hera Venenosa que a Uma Thurman soube eternizar no cinema. Especialmente no caso de Batman & Robin, eu tenho para mim que esse inferno receptivo ocorre porque em algum ponto as pessoas queriam levar a sério o Joel Schumacher, ou vai ver só estavam muito ocupadas se questionando sobre porque reparavam tanto assim nos mamilos e no volume genital de super-heróis mascarados, mas eu deixo aqui minha carta de amor para esse filme lado a lado com minha cartinha para Os Garotos Perdidos. Não que todo mundo seja obrigado a gostar dos Bat-mamilos ou abraçar por completo um farofão de super-heróis que passa muito do ponto em algumas piadas, mas não é como se vocês não aclamassem as mesmas coisas quando feitas por outra lente, camuflando a estilização trasheira, camp e galhofa com um pano de fundo mais aceitável para o público másculo - que é algo que ocorre em Os Garotos Perdidos seguindo um perfeito ponto de equilíbrio. Enquanto muitas pessoas adoram se prender aos detalhes mais estilizados da produção para elegê-lo como um filme de horror e comédia adolescente que carrega vampiros, sustos, combatentes atrapalhados do mal encarnado e homens fissurados por mulheres que eles conheceram aleatoriamente em um show de rock, eu prefiro me agarrar ao singelo detalhe de que o cinema queer ultrapassa qualquer barreira convencional sem que o público geral perceba - afinal, the world of the heterosexual is a sick and boring life.

A trama central de Garotos Perdidos gira em torno de dois polos distintos entre irmãos: Mike, o mais velho, acaba de chegar na cidade de Santa Carla de mudança com sua mãe, Lucy, e o caçula, Sam, para morar com seu Vovô após o divórcio dos pais. Enquanto Mike passa os dias saindo pela cidade, aproveitando o píer da praia durante a noite e assistindo shows de saxofonistas sarados, sem camisa, trajando calça de couro e usando rabo de cavalo - Tim Capello, saxofonista da Tina Turner e o único homem besuntado em óleo que eu pretendo defender - Sam visita a loja de revistas em quadrinhos dos irmãos Frog e reclama da ausência da MTV em sua nova casa. Tudo muda quando Mike se interessa por uma garota no píer, Star, sendo atraído pela mesma para um encontro com os famigerados Garotos Perdidos do título, David, Paul, Dwayne e Marko. O resto do filme se desenrola bem o suficiente para que eu deixe você assistir sabendo apenas sobre o que eu introduzi, então vamos para o cinema queer
O que me fez amar Garotos Perdidos de cara é a forma como todos os mínimos detalhes inseridos pela lente e diretriz do Joel Schumacher conseguem ultrapassar o terreno comum da heretonormatividade que eu já repeti 500 vezes que odeio em filmes de vampiro. Vampiros que são sensuais são muito mais interessantes que vampiros sanguinários. E em Garotos Perdidos você tem um bando de padrão extremamente saboroso, com cabelos longos, jaquetas que eu gostaria de roubar para o meu guarda roupa e um ar natural de sedução - Jason Patric e Kiefer Sutherland podiam me raptar para o bando deles que eu tava bem feliz. E a forma como as coisas se desenrolam contraria diversas normas sem que muitas pessoas percebam, mas ainda assim não é uma tradição de filmes de horror colocar um protagonista para consumir o sangue de outro homem, muito menos é comum fazer do seu principal antagonista uma figura extremamente interessada em estar junto do protagonista, chegando a dizer que quer ficar com ele e trazê-lo para seu lado. Ainda que nenhum personagem do filme seja LGBT+, a história inteira gira em torno de personagens homens e foca em relações masculinas que são permeadas pela proximidade entre garotos jovens e os laços que são criados entre eles, seja para vagar por Santa Carla como vampiros ou para matar os vampiros com estacas de madeira fincadas em seu peito.

Eu sou contra a ideia de reforçar o costume de sexualizar toda e qualquer relação masculina, passando a impressão de que homens não se relacionam sendo carinhosos entre si sem que eles sejam LGBT+. Todavia, pensando na trama vampiresca aqui dentro, tudo no roteiro, na montagem e na direção parece costurado de maneira sutil para que a maioria das pessoas seja distraída pela história de amor e resgate entre Mike e Star, sem perceberem que a real história é o interesse masculino entre o grupo de Garotos Perdidos pelos irmãos Mike e Sam. Para mim, Os Garotos Perdidos é um farofão oitentista recheado de signos e acenos para uma norma comportamental mais livre: ainda que não exista uma relação paralela com a homossexualidade dentro do filme, há um rompimento na norma tradicional para que ocorram relações muito mais carinhosas, intimidantes e sedutoras - aos personagens e aos espectadores.
Recentemente, eu comecei a corrigir uma pequena falha pessoal na minha relação com o horror que consiste em consumir uma maior quantidade de produtos criados por pessoas com as quais eu posso me identificar com propriedade. É claro que inconscientemente minha vida foi sendo adentrada por algumas figuras identificáveis no meu crescimento, como o Kevin Williamson que é roteirista de Pânico, o Clive Barker que é escritor e diretor de Hellraiser e o Don Mancini que é o criador do Chucky, todos eles abertamente gays, mas é diferente chegar a esses criadores sabendo que eles são LGBT+ e pescando símbolos que apenas pessoas com a mesma vivência reconhecem. Embora o Joel Schumacher seja um diretor que nunca se restringiu a fazer filmes trabalhando apenas com personagens que fossem gays em cena, muito da sua expressão sexual vazou para os filmes que ele lançou e eu acho Os Garotos Perdidos o melhor exemplo dessa assinatura estilosa do saudoso cineasta. Por si só, Os Garotos Perdidos é um dos filmes mais divertidos dos anos 80 e consegue ser extremamente influente até os dias de hoje para o gênero de horror com vampiros, bem como me permite explorar mais uma narrativa queer dentro de um filme que irei guardar com ainda mais carinho por motivos de identificação pessoal com relacionamentos masculinos e a intimidação que a proximidade com homens pode me trazer.



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