Faca no Coração : Beleza na monstruosidade
- Fefa

- Apr 8, 2022
- 6 min read
A erotização como veículo de representação - sem higienização.

Na semana em que estou escrevendo esse texto para o site após meses, ocorreu de ser um momento em que estou me permitindo conhecer mais profundamente uma série de pornochanchadas brasileiras que saíram direto da Boca do Lixo - e eu também ando bastante interessado em saber mais sobre o local e sua história enquanto polo cinematográfico.
Eu imagino que muitas pessoas pensem nas pornochanchadas como filmes que oscilam entre o ridículo e o escrachado enquanto arrumam qualquer desculpa para inserir cenas de sexo, mas é bem interessante assistir a elas hoje em dia, com uma visão de cinema um pouco mais abrangente quanto ao cinema independente e nacional, quando a gente enfim percebe que há muito material dramático, romântico, violento e espantoso dentro do gênero.
O filme mais recente que assisti foi A Reencarnação do Sexo do Luiz Castellini, uma pornochanchada menos conhecida que outros títulos mas que também é uma das melhores que vi. Ambientada no horror, a trama vai do surreal pro aterrorizante constantemente e insere cenas de sexo bem pontuais nesse trajeto que são muito boas e fundamentais na construção do medo e do pavor.
Mesmo sendo um filme datado de 82 que tem suas problemáticas e tropeços devido ao contexto social da época em que foi produzido, eu achei A Reencarnação do Sexo um bom exemplo de obra independente que consegue ser transgressora ao percorrer vias erradas e exatas, em especial na representação de uma relação sexual entre duas mulheres e o dilema com a homofobia de uma das personagens.
As pornochanchadas de maneira geral possuem seus grandes problemas com as temáticas abordadas - em todos os sentidos - mas eu ainda assim fico bem envolvido por algumas delas, principalmente vendo como muitas dessas produções cinematográficas lidavam muito bem com questões do cotidiano brasileiro, ligando-se diretamente com as monstruosidades humanas em seu enredo sem nunca perder o fio humorado e o chamariz mais sexual. Algo semelhante ocorre quando vejo aos filmes do José Mojica Marins - o nosso Zé do Caixão - e com o cinema produzido pela França, ainda mais quando mira para as representações queer.

Uma das razões para esse site existir é a pandemia. Com mais tempo disponível e um consumo maior de cinema de horror e cinema queer, bateu vontade de criar algo em torno disso. E mesmo agora em um período pós pandemia onde eu voltei a ver a rua, confesso que mantenho o hábito confortável de chegar em casa mais cedo em um sábado só para gastar meu tempo ainda disponível comendo alguma coisa enquanto vejo um filme que vai me entreter quando estou sozinho - pessoas queer parecem estar preferencialmente mais sozinhas quando se entendem/conformam/enxergam como solitárias, né?
Num dos últimos sábados eu tomei vergonha na cara e assisti pela primeira vez ao Faca no Coração (Knife+Heart no original), um horror queer francês que bebe muito do giallo italiano em sua construção, ambientação, estética e trama para nos apresentar um grupo de astros e produtores pornográficos independentes conhecidos por seus filmes entre a cena gay localizada em Paris, em 1979 - marque a data, é pertinente.
Apesar de fazer algum tempo desde o sábado em que eu o assisti, eu não tive como não me lembrar do Faca no Coração conforme via várias pornochanchadas. Há muitas semelhanças entre esse cinema queer mais moderno feito nos nichos independentes e o nosso próprio cinema nacional independente da Boca do Lixo, sendo a maior delas a capacidade de elevar a potência de seus personagens ao enxergar beleza na monstruosidade.

Dirigido pelo Yann Gonzalez, que também é o líder do M83 e fez a ótima trilha sonora do filme, Faca no Coração começa de uma maneira muito parecida com Parceiros da Noite (Cruising) do William Friedkin, de 1980 - veja a proximidade da temporalidade em que as obras são ambientadas e você vai concluir que não deve ser uma mera coincidência.
Um garoto está em uma balada e tem sua atenção chamada por um indivíduo mascarado que o leva para outro quarto para transarem. Tudo ocorre normalmente até a figura desconhecida retirar um dildo aparentemente inofensivo e usá-lo para assassinar o garoto enquanto o mesmo está imobilizado na cama. O personagem, por acaso, é um dos atores pornográficos que trabalha para a diretora Anne, nossa próxima visão dentro do filme.
O assassinato de um ator pornô gay não é bem o maior interesse da polícia francesa no ano de 79, mesmo sob protestos e provocações da Anne para que haja mais empenho em desvendar a identidade de quem tenha cometido o crime contra um de seus twinks e passivos favoritos. A vida segue com outros problemas que estão nos por menores, mas nem tanto.
A partir desse ponto o desenrolar da trama se dá por situações que estão muito divididas entre si, mas que culminam num ponto de encontro comum a todas elas: o desespero de estar sozinho enquanto queer.

A Anne é uma das protagonistas mais fascinantes que eu já vi ao longo de tantos anos consumindo cinema. Ela é problemática, abusiva e filha da puta em inúmeras situações, mas também uma peça complicada empática que possui seus vícios, seus dilemas, suas merdas para lidar e a solidão - a cena na cabine telefônica é a porta de entrada mais coerente para a personagem e um dos melhores momentos do filme sem nem estar atrelado com o horror.
Por si só, a Anne forma a trama amorosa mais dolorida do filme, retratando o processo de término e tentativa de reaproximação da diretora com sua editora cinematográfica, Loïs, com a qual viveu anos em um relacionamento que chegou ao fim.
A personagem também é centro na apresentação do casting de atores pornográficos gays que trabalham para ela e um grupo de amigas travestis que estão alheias à pornografia, realizando trabalho sexual de rua, mas ainda no entorno dos astros - e em ambos os conjuntos estão potenciais vítimas do assassino mascarado.
Por fim, há a trama de assassinato que assombra o filme inteiro e a figura do assassino que está conectada com Anne, tornando-se ao mesmo tempo o maior medo da diretora e sua obsessão na tentativa de impedir que mais corpos caiam mortos - assassinados sempre com brutalidade e detalhes fetichizados.
Seja pela história ambientada em um período que antecede a AIDS, ou do fato de existir um assassino perseguindo pessoas que estão à margem da sociedade, ou pela influência profunda dos elementos de giallo que percorrem o filme inteiro, Faca no Coração é hipnotizante em todas as suas situações - também é cruel, desprendido de convenções do cinema de horror heterogêneo e estranhamente confortável.

O sadismo do assassino em sodomizar suas vítimas antes de matá-las é tão perverso quanto a decisão da Anne de produzir um filme pornográfico parodiando os assassinatos de seus próprios atores. Ambas as ações ainda estão abaixo de um crime antecessor da temporalidade apresentada em 79.
Se dum lado temos uma protagonista monstruosa que desencadeia muitas das merdas que respingam na cara de pessoas associadas a ela, que inevitavelmente caem vítimas de uma facada sem saber a razão, no outro há uma figura vilanizada que também é sofredora à sua própria maneira. No fim são dois personagens tentando se reconhecer e se reconectar dentro da solidão ao cometerem seus crimes - em esfera pessoal ou coletiva.

Em anos recentes tem sido mais comum encontrar representações de figuras queer bondosas e exemplares no entretenimento mais amplo e também no circuito segmentado. É positivo presenciar esse movimento, mas há um incômodo bem grande quando a coisa toda acaba por tornar personagens queer em uma espécie de totem representativo, higienizando e descaracterizando uma comunidade diversa como se as pessoas inseridas ali fossem uniformes. A existência queer é uma fuga da normatividade que é facilmente aceita em sociedade. Logo, para que uma fração minúscula desse grupo de pessoas que se identificam enquanto queer seja somada ao padrão social bem visto, a enorme parcela maior deve ser excluída, mas sentir que deveria estar incluída e se conformar em estar desamparada, mesmo acreditando que o amparo virá por meio do padrão estrutural social. O que Faca no Coração faz de significativo contra essa corrente representativa vazia desde o seu lançamento é trazer o horror junto da apresentação do que é ser queer, retratando a ameaça dentro de ambientes que são espaços de segurança para a maior parcela da comunidade que não é aceita estruturalmente - o filme mostra parques, clubes sáficos, baladas gays para cruising, cinemas pornô e bares com apresentações de drag queens. Ao fazer isso, ele não se higieniza ou torna suas personagens exemplares que serão aceitos, porém ele nunca as julga ou renega. O Yann Gonzalez poderia fazer observações e críticas quanto ao consumo de pornografia, a indústria por trás desse produto e sobre a objetificação de corpos dentro desse ciclo. Nós, enquanto público, podíamos direcionar comentários cabíveis sobre a ausência de pessoas de cor ou gordas de práticas sexuais no filme, a vilanização de personagens lésbicas raivosas e a estereotipagem de pessoas trans. Contudo, a maior preocupação aqui não é apontar o dedo para os personagens que estão tentando sobreviver em um ambiente inóspito para elas ou para seus arquétipos mais negativos, muito menos impedir criadores queer de explorarem os limites da monstruosidade cotidiana da comunidade. Todos os símbolos associados à pessoas queer, muitas vezes no pejorativo, podem sim ser apontados como problemática, mas eles inegavelmente fazem parte da história, da cultura, do comportamento e das manobras de sobrevivência dessas mesmas pessoas. Ou seja, apontar o dedo para elas em algumas circunstâncias é mais conservador e opressivo do que abraçar a representatividade através da monstruosidade. No final das contas, Faca no Coração me fez menos sozinho.



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