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Ataque dos Cães : O Horror no masculino

  • Writer: Fefa
    Fefa
  • Dec 9, 2021
  • 5 min read

You want me, Mr. Burbank?

Uma das formas mais simples e comuns de definir o Horror enquanto gênero, temática e linguagem, consiste em pensar em qual tipo de terror ele desperta no outro e a forma como cada pessoa pode se sentir apavorada, amedrontada ou apreensiva com certas produções. Nem sempre o que causa medo em uma pessoa irá ter o mesmo impacto em outra, e dentro dessa constatação existe um mundo de separações, recortes e individualidades que afetam diretamente a maneira como encaramos o Horror no cinema, na televisão, na literatura ou mesmo na sociedade. E fãs de Horror podem ser encarados como escavadores, em especial os que se inserem em espaços de minorias sociais, sendo grandes especialistas em cavoucar atrás de obras que dialoguem com aquilo que eles vivem e que lhes causa medo, tensão, nervosismo, tristeza e provoca risada - Por que não? Ataque dos Cães não é exatamente o tipo de filme que eu veria por livre e espontânea vontade, porém muitos fãs de Horror do meu ciclo social comentaram sobre ele nos últimos dias e o que chegou a mim foi o conhecimento prévio das temáticas queer apresentadas por Jane Campion no longa - E tal qual funciona com o hábito de cavoucar para achar Horror na arte, pessoas queer são treinadas para passar de boca em boca, tweet à tweet, de link em link, todas aquelas produções que dialogam com o que elas se identificam.

É muito difícil consumir cinema atualmente sem ter qualquer conhecimento prévio do filme ou pegar um spoiler. E eu digo isso sendo a pessoa que foi assistir Ataque dos Cães justamente por saber que algum tipo de contexto queer me esperava dentro dele. Porém eu não soube como se dava o desenrolar dessa intenção e esse é o ponto que torna a experiência ainda mais curiosa. Dividido em atos esporádicos que indicam a passagem do tempo na história, o filme se inicia como um típico western situado em décadas passadas. Por muito tempo, é como se o longa estivesse apenas jogando cenas na sua direção sem querer entregar sua real intenção, o que está sendo desenvolvido no roteiro ou qualquer indício do ponto final no qual ele quer chegar. Isso não é uma crítica, o começo mais lento de Ataque dos Cães é atrativo o bastante para te fazer conhecer o quarteto protagonista e categorizar seus arquétipos para entender o protótipo básico da trama. Nisso, temos Phil como um cowboy líder alfa, George como seu irmão gentil, Peter como um twink adolescente e afeminado associado à sua mãe Rose, que pode ser encarada como uma viúva solitária. Figura central do mencionado quarteto, a posição de Phil dentro da trama exerce uma liderança que não é restrita ao seu arquétipo. O personagem domina a história do começo ao fim, apresentando nuances distintas mas muito coerentes com o subtexto que está sendo desenrolado pela Jane Campion como prioridade para amarrar o texto superficial.

Trabalhar um protagonista desgostável não é uma novidade no cinema, especialmente quando voltamos aos filmes westerns que hoje em dia podem causar muito mal estar a determinados espectadores - eu incluso. Ao longo da história, a ponta de lança do Phil é sua masculinidade exacerbada e a forma como ele se utiliza da mesma para atingir o Peter com ataques homofóbicos, o George com comentários ácidos sobre sua preferência por estar longe da montaria e, principalmente, para gerar angústia e pressionar a Rose. O direcionamento de ataques do Phil à viúva acontece durante o filme inteiro. Ele a vê como frágil, interesseira, gananciosa e uma ameaça ao seu dinheiro, seu espaço e o território de sua família. O jogo inteiro entre eles é claustrofóbico, sufocante e pavoroso para a personagem. É tudo extremamente minucioso, mas efetivo na intenção de causar mal estar. Contudo, eu prefiro não tratar a construção do relacionamento entre os dois personagens como sendo um embate entre o homem machão e uma mulher vítima de machismo e misoginia. Para mim, Ataque dos Cães é uma alegoria de antônimos em constante choque, sendo o principal deles a masculinidade e a feminilidade. Isso porque o masculino exacerbado do Phil foca na Rose enquanto mulher e figura feminina inferior, mas também se volta para a masculinidade branda do irmão e a inexistente masculinidade do Peter. Todo esse ódio ao feminino e a tudo que remete a feminilidade, cabendo a isso muito poucas distinções de gênero no filme, torna o choque entre as situações de repressão x opressão, masculinidade x feminilidade e heteronormatividade x homoafetividade mais desconfortável do que a misoginia para com mulheres por si só - que sim, existe e é retratada de forma cruel, mas é só a superfície do Horror.

Revisitar o passado e reimaginar a masculinidade dentro de tempos ainda mais opressivos, dando aquele pequeno twist no roteiro para mostrar mais além da casca grossa do estereótipo, é o motivo pelo qual gosto de filmes como O Farol do Robert Eggers. A Jane Campion faz isso aqui, porém consegue transpor o limite da expectativa em diversas ocasiões. Aquilo que comentei sobre o subtexto do filme ser o que amarra a história central faz mais sentido quando pensamos no que é indicado e sugerido pelos personagens, e não no que é mostrado em tela. A masculinidade exacerbada do Phil é mostrada durante todo o longa, valendo mencionar os raros segundos onde ela se dissipa para mostrar além do macho alfa que compõe o personagem. Na mesma via, a feminilidade do Peter é nua e crua para quem quiser sentir repulsa, se identificar ou fazer piada enquanto assiste, o que fica subentendido são os mecanismos de defesa que ele aperfeiçoa para se proteger da opressão ao seu redor e garantir o bem estar de sua mãe sempre que preciso.

No contexto do passado revisitado, o ataque ao feminino e a rejeição de todos os seus signos é um mecanismo de defesa e opressão dominante implementado por gerações de homens. E tudo que é feito a partir disso é agressivo, violento e incômodo. Ao mesmo tempo em que a masculinidade causa horror e afeta homens os pressionando a se inserir no papel esperado para eles, ela também pode ser muito confortável para que seja usada como um disfarce em sociedade e dê continuidade a ciclos de opressão que estão atrelados ao lado mais exacerbado do masculino. Dentro do filme, tudo o que o Phil faz enquanto repressor exerce uma angústia mais pesada do que os desejos secretamente almejados por ele enquanto um homem reprimido. O Peter entende isso e usa desse conhecimento para armar sua defesa, sem ceder ao lado exacerbado da masculinidade - ainda que consiga usufruir de alguma esfera dela ao dividir um cigarro com o personagem mais velho na cena de maior tensão sexual do cinema em 2021. Ataque dos Cães é franco o bastante para que o espectador vislumbre ou imagine as razões do Phil para que ele seja quem é, mas também é áspero o suficiente para evitar a continuidade de uma tradição masculina, heteronormativa e opressora ao usar dos signos de feminilidade que o Peter carrega para torná-lo ativo no encerramento do ciclo iniciado pelo falecido Bronco Henry como mecanismo de defesa social - Well behaved twinks rarely make history.

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