Pânico : Bem-vindos ao Ato 3
- Fefa

- Jan 14, 2022
- 5 min read
O meta-slasher-whodunit sempre será o gênero mais fundamental do horror.

Hollywood descobriu que fazer reboots para suas grandes franquias lucrativas é a estratégia segura que mais vende e melhor agrada o público ao longo dos últimos anos. Tal público aceitou de bom grado diversas obras embebidas em nostalgia e puxação de referência, quase sempre se referindo às mesmas como uma “Carta de amor aos fãs” - Nada contra, mas também há muitas coisas que eu não sou a favor dentro disso. De antemão, acho válido dizer que eu sou muito fã de Pânico enquanto franquia. Todos os filmes possuem um lugar especial em meu coração e são defendidos por mim com unhas e dentes (e facadas). Eu estava predisposto a gostar de qualquer filme que saísse a partir dessa válvula metalinguística existente no ramo slasher, mesmo sendo aquele que critica fanservice sem esforço e cartas de amor cinematográficas vazias para seu nicho. Em nenhum momento o novo Pânico foge de cumprir a tabela comercial mencionada acima, contudo, assim como nos quatro filmes antecessores da saga, a graça está em zombar das regras sem ter medo de ser camp e previsível ao seguir todas as rotas ironizadas no roteiro e pela direção.

Construir um fandom que acompanha sua franquia é importante para que a própria se construa e se consolide, bem como para que possa ter desenvolvimento em uma vida útil, ainda que com tropeços no meio do caminho - Slashers são mestres em criar filmes singulares que deram sequência à produções boas, duvidosas ou detestáveis, mas que inegavelmente fazem parte da sua história e se inserem na vida de seus espectadores. Pânico é apontada por muitos como a franquia mais sólida do cinema slasher por uma série de argumentos, desde o simples fato de que todos os filmes são realmente muito bons, até a constatação prática de que seu número enxuto de sequências lançadas em espaços de tempo majoritariamente distanciados colabora para que cada filme respire e trabalhe suas ideias observando-se e enxergando o cenário em que está inserido. Dessa forma, Pânico 5 - para mim é IMORAL não falar do filme por essa alcunha, mas quando você o assiste fica compreensível a escolha de emular o título de 1996 - é o Ato 3 de uma franquia que agora compreende quatro décadas de sátira e diversão em cima do gênero slasher e seus primos na família do horror, bem como dá a cutucada e uma amaciada necessárias em seu fandom.

Se em Pânico 1, 2 e 3 nós pudemos olhar para a dissecação do que é um slasher clássico, uma sequência de um sucesso e uma trilogia lucrativa, respectivamente, em Pânico 4 nós vimos Wes Craven e Kevin Williamson fazendo um remake, um reboot e uma sequência para essa famigerada trilogia alguns anos antes de Hollywood encontrar o tesouro enterrado. Pânico 5 soa como o terceiro ato entregue ao público que é fã da franquia, após um hiatus longo e exaustivo que não dava muitos sinais de que teríamos um novo capítulo em Woodsboro, porém o intervalo se mostrou saudável para uma renovada geral em temas, personagens e espírito metalinguístico. Tudo que aconteceu para chegarmos até aqui importa demais para o fandom de Pânico e todos os criadores envolvidos na execução desse meta-slasher-whodunit situado no mundo pós-2020 - sem uma pandemia no meio - mas ao mesmo tempo nada disso deve ser visto como impedimento para avançar em possibilidades, e de fato não é.

Compile os comentários sobre as expectativas para Pânico 5 e você irá se deparar com uma grande preocupação do fandom em torno da sobrevivência do trio protagonista lendário, Sidney, Gale e Dewey. Com mais afinco, você chegará em algum fã do (ÓTIMO!) Pânico 4 que também se preocupa com a Judy Hicks e algum defensor do (IGUALMENTE ÓTIMO!) Pânico 3 que torce por um cameo da Heather Matarazzo como Martha Meeks. O Ghostface vem depois disso tudo - E é justamente essa falta de expectativa em torno dele que torna a presença do assassino fundamental na nova sequência. Não é como se os traumas dos personagens sobreviventes da quadrilogia comandada por Craven e Williansom não fossem importantes, eles são e isso está impresso no filme, em maior e menor escala de acontecimentos. Porém... Cansa (!!!!). É muito gostoso ser fã e se deparar com um compilado de nostalgia da sua franquia favorita pronto para ser consumido, mas eu considero mais delicioso, divertido, ácido e agradavelmente escroto ir além da nostalgia embalada em um novo filme - nesse caso, requel - e abrir margem para novos personagens, novas histórias, novos traumas, novas perseguições e novos tipos de horror. O elenco mais velho da franquia é fundamental para que Pânico 5 exista, mas não é a mola motora que impulsiona o roteiro, o universo de referências à Stab e seus “vizinhos” cinematográficos, ou mesmo a maior parte das cenas de tensão e de mortes. Para isso nós temos Tara, Sam, Liv, Mindy, Amber, Wes, Chad e Richie, compondo o time mais carismático da franquia junto aos grupos do filme original e também do quarto filme.

Em um momento cinematográfico no qual é muito simples e seguro “apagar” tudo que não deu certo e trazer novos filmes corrigidos, higienizados e moldados para fazer a felicidade de um grupo de pessoas que preferem padronização à autenticidade, Pânico 5 pega carona em mais uma tendência da indústria e se faz ir além do fanservice e reboot automático com um ótimo elenco, potencializando a assinatura dos cineastas Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett - que são fãs mais empolgados sobre o que a franquia pode perseguir daqui por diante do que puxadores de saco do seu legado. Pânico 5 tem novos sobreviventes, novas vítimas, novos psicopatas, diferentes configurações de estereótipos - finalmente temos personagens negros e queer mais amplos em desenvolvimento do que rasos, e até mesmo uma thirst trap pros gays fãs da franquia - e se depara com um cenário bem chatinho sedimentado no mundo pós-horror, do qual ele pode tirar sarro e renovar a franquia. E aqui está a razão desse filme ser excelente em todas as suas escolhas, incluindo as mais controversas, ofensivas, referenciais e reverenciais, retiradas de uma novela do Walcyr Carrasco ou meramente geniais. Eu estou feliz. Se pararmos para pensar que somente o slasher possui a potência necessária para cutucar o público de horror e Pânico segue sendo o melhor espaço criativo dessa seara, é muito agradável concluir que essa sequência não é a mais óbvia “Carta de amor aos fãs’’ que muitos esperam mas também não se vira completamente rumo a se tornar uma definitiva “Carta de ódio aos fãs” - E esse segundo termo também já está tão previsível e irritante quanto o primeiro, John Waters fala por mim sobre o que realmente importa no horror:




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