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Noite Passada em Soho : O prelúdio para a nostalgia

  • Writer: Fefa
    Fefa
  • Nov 26, 2021
  • 4 min read

They’re not just dreams. It really happened.

Buscar uma identidade própria fora de si é aquele tipo de hábito que parece muito estranho quando verbalizado, mas que inconscientemente já foi feito por todos nós em algum momento. Falando por mim, eu faço ainda hoje. Recentemente eu tenho pensado em muita coisa que já experienciei e driblado algumas crises de idade e vida adulta que eu preferia não estar me deparando. E quando eu não quero me deparar, eu sempre busco algum refúgio fora do mundo real. Ao longo da pandemia, esse refúgio muitas vezes se deu por meio dos filmes e do meu encontro de conforto com a fantasia nostálgica de produções datadas do cinema, empacotadas para quem gosta de se deliciar com um cinema que era muito mais vívido, colorido, marcante e característico das épocas em que foram lançados. Eu não serei hipócrita de tentar negar que em alguns momentos tudo isso me parecia mais identificável e interessante que me deparar com meu tempo presente, não só pela pandemia em questão como também por processos internos de autodescoberta, mas agora eu posso dizer que eu tive muito menos apego a isso do que a Eloise em Noite Passada em Soho.

Talvez eu devesse ter um pouco mais de moderação e pensar melhor antes de falar publicamente que sou bem nerd quando o assunto é algo que eu gosto, mas eu realmente gosto de cavar fundo no passado e nos detalhes de bastidores de álbuns, filmes, documentários, livros e fotografias que amo por gostar da sensação inédita em descobrir tudo que é possível sobre essas produções - E sendo uma pessoa queer, essa é uma das minhas principais formas de estabelecer uma relação muito própria com aquilo que eu me identifico. Em um primeiro momento, Soho é um filme que parece funcionar de maneira semelhante a minha. Ele faz quase que a mesma trajetória que eu em tela, só que percorrendo e dichavando as todos os aspectos que compõem um giallo - o irmão italiano mais velho do slasher, com mais requinte em sua violência e um senso estético melhor apurado.

Provavelmente você vai se deparar com Soho nos cinemas sendo descrito como suspense e thriller, mas o filme é integralmente um giallo em sua inspiração e essência, assim como também é um coming of age interessado em desenvolver inúmeras camadas de suas protagonistas. A Eloise de Thomasin McKenzie é nosso ponto de partida e está sendo retratada no exato momento em que sai de casa, vai para uma grande capital, conhece novas pessoas, vivencia seu despertar sexual e lida com coisinhas bem agradáveis do mundo adulto, como disputas, invejas, competitividade e rivalidade - Jocasta Furacão, se você tivesse mencionado Kylie Minogue ao invés de Jenner eu te chamaria de girlboss. No esfera mais imaginativa da história, a Eloise passa várias noites do filme dentro de um quarto no qual têm sonhos vívidos em noites passadas em Soho, nos quais ela se vê refletida em Sandie, uma aspirante a cantora que possui muito mais confiança, personalidade e volume na franja para conquistar tudo aquilo que deseja. E tudo começa com um verdadeiro sonho, lúdico, inspirador, romântico e aconchegante, onde por algumas noites você consegue ser a Anya Taylor-Joy imersa em cores vibrantes que agradariam o OnlyFans de qualquer morador de Santa Cecília em São Paulo.

A nostalgia é vendida por meio de estereótipos para nós e Noite Passada em Soho trabalha com arquétipos comercializados amplamente no cinema - a maioria deles, femininos. No entanto, aqui há muito mais complexidade nessas figuras femininas batidas para torná-las mais reconhecíveis para um público que em grande maioria já não possui mais a visão tradicional do giallo original. É dessa forma que Soho torna quase impossível não querer ser a Sandie ou se enxergar como alguém tão singular no mundo quanto a Eloise, porém a história destaca os riscos iminentes para quem escolhe objetificar tais personagens se guiando pelo apelo nostálgico. Ainda que paire uma idealização envernizada do passado por cima de todo o filme, na medida que esse ideal se desdobra e vai revelando mais lados das figuras centrais em desenvolvimento, se abre espaço para que arquétipos femininos totalmente dissonantes se cruzem e estabeleçam uma relação bastante tortuosa, mas que te mantém engajado.

Curiosamente, e também internacionalmente, há um artificialismo muito maior e constante na ala masculina do filme. E ainda que me incomode ver um personagem negro sendo retratado como um papelão sem propósito e usado como estepe para que a protagonista seja desenvolvida, em especial numa cena com contextos muito desconfortáveis que podiam ter sido evitados, eu ainda consigo ver sentido em vê-lo sendo o objeto da cena. Soho não é perfeito e há coisas confusas ou mal inseridas que não engatam na história pelo fato do filme preferir pisar no acelerador - e eu genuinamente queria que o Edgar Wright tivesse ido fundo NAQUELA cena da tesoura - sendo que o maior problema dessa escolha está na presença desses momentos de desaceleração justo na segunda metade do longa, antecedendo a entrega de um clímax explosivo e surreal de tão belo e absurdo. Dar uma enxugada nos excessos faria muito bem para que a troca de corpos, no passado e no presente, fosse ainda mais impactante e menos truncada, mas eu estou bastante disposto em ignorar esse ponto e seguir rumo à conclusão que eu gosto - tal qual a própria Eloise faz em determinado momento do clímax.

Junto a Maligno, outro filme desse ano que possui seu coração dentro do giallo, Noite Passada em Soho consegue ser divertido, único e novo, servindo de prelúdio para a nostalgia com o intuito de entregar mais entretenimento que quebra-cabeça O coração de Soho reside nas intenções do Edgar Wright que não são expositivas, mas sim alegóricas, utilizando adereços vibrantes e embalagens de Technicolor, CGI descaradamente exagerado, perucas loiras e Exploitation para então ir revendo e reexibindo os pontos positivos e negativos do giallo sem abrir mão da vontade de vender ao público o sentimento de querer ser a Anya Taylor-Joy, mesmo sabendo dos riscos existentes por trás disso.

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