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Fright Night, A Hora do Espanto : Chris Sarandon, mitos vampirescos e fluidez sexual

  • Writer: Fefa
    Fefa
  • May 12, 2021
  • 7 min read

You’re so cool, Brewster!

Eu cresci vendo a saga Crepúsculo nascer e se tornar o grande fenômeno - hoje em dia, cult - que virou. Também via alguns filmes de Blade passando no SBT vez ou outra e no Corujão da Globo sempre havia uma reprise de 30 Dias de Noite para assistir - No entanto, nenhum desses filmes de vampiros chegou a me interessar pelo gênero, ou me fez encarar vampiros de uma maneira mais sexual. Foi só quando vi uma entrevista da Rita Lee, onde ela conta diversas histórias e fala um pouquinho da inspiração para compor Doce Vampiro, que enfim eu entendi o quão extraordinária e atraente pode ser a figura vampiresca. A Hora do Espanto foi o primeiro filme que eu assisti e que me deu um clique do quanto a imagem do vampiro consegue mexer comigo de forma mais subjetiva - E não é só pelo fato do Chris Sarandon estar explodindo de gostoso no filme, mas também pelo Jerry Dandrige ter se revelado o vampiro mais interessante que eu já vi no cinema por ressoar com minha própria forma de encarar sexualidade, libido e tesão platônico.

A história em A Hora do Espanto é bem simples: o casal Charley Brewster e Amy está no quarto namorando, até rolar uma breve discussão sobre como a Amy nunca se solta além dos beijos e mãos bobas, levando Charley para a janela do quarto, onde sua atenção se desvia da Amy para o quintal do seu mais novo vizinho carregando um caixão no meio da noite. As noites avançam e Charley ainda está com a atenção fixa em espiar seu vizinho, um hábito indiscreto que fica mais intenso quando jovens garotas começam a sumir na cidade, até que em uma dessas bisbilhotadas ele se depara com uma mulher muito bonita sendo beijada pelo Jerry - o vizinho - mas o passatempo voyeur do Brewster acaba quando ele repara nas unhas e dentes afiados do vizinho enquanto o mesmo fecha a cortina para impedir o espião. A partir daí o filme se torna uma enxurrada de diálogos geniais envolvendo o mito sobre vampiros, brigas de casal entre Charley e Amy, piadas de mau gosto do Evil Ed, sustos de trancar o cu, efeitos visuais muito bons, a introdução do apresentador canastrão Peter Vincent e uma série de sequências maravilhosas com o que há de melhor no terror oitentista - mas tudo isso você pode assistir por conta própria, por aqui, eu prefiro falar um pouquinho mais sobre a figura do Jerry Dandrige e sua relação com os demais personagens já citados. Tom Holland, escritor e diretor de A Hora do Espanto, e também diretor do primeiro filme do meu queridinho Chucky, Brinquedo Assassino, nunca escondeu que a figura do Jerry - vivido pelo Chris Sarandon - é um compilado de características que conversam com as mais diversas lendas sobre vampiros. Vendo o filme você pode pegar vários detalhes sobre criaturas vampirescas que o personagem reproduz, como seu hábito de comer maçãs a todo momento tal qual os morcegos frutíferos fazem, sua obediência à regra clara que determina que ele só pode entrar nas casas onde é convidado pelo dono a adentrar - meu momento de humor favorito de A Hora do Espanto - e, por fim, sua sexualidade fluida. As lendas sobre vampiros retratadas no cinema, na televisão e em outras mídias costumam percorrer por muitos temas, mas quase sempre deixam de lado boa parte das nuances sexuais que vampiros apresentam com relação às suas vítimas - independente do gênero que elas possuem. Ver vampiros machões que querem pagar de fodões enquanto devoram pescoços e metem medo em mulheres sempre foi uma coisa sem graça para mim. Ir pro outro extremo e ver vampiros bocós super românticos que vão atrás de qualquer protagonista feminina sem carisma eu também achava um saco. Agora, ver o Jerry Dandrige se aproximar de toda vítima em potencial exalando sex appeal fala melhor a minha língua.

O sex appeal aflorado do vampiro recém-chegado à vizinhança faz com que Charley Brewster deixe de lado a namorada tagarela na Hora H do Minuto M, trocando sexo por uma espiada na sua janela com vista privilegiada para a de Jerry. Não é surpresa ver que logo, logo o personagem também dá um jeito de se aproximar da mãe do Charley e facilmente conquista ela para ter a permissão de entrar na casa dos Brewster quando bem entender. O filme avança, a paranoia do Charley aumenta e, no decorrer da trama, é quando ocorrem minhas sequências prediletas: a cena do beco escuro e a cena da discoteca.

Na primeira, logo acima, o Evil Ed se distancia dos amigos após pregar uma peça em Charley e cai na burrada de adentrar um beco escuro. Junte os dois fatores comuns em filme de terror e você tem a cena de perseguição óbvia entre vampiro e vítima que vai terminar no encontro mortal entre os dois. Se A Hora do Espanto fosse um filme tradicional de vampiro machão, o Ed morreria em dois segundos com sangue voando na tela. Como estamos dentro de um filme onde o diretor fez escolhas mais interessantes, a cena desvia sua rota para um discurso de aceitação onde o Jerry prefere acalentar e fazer uma oferta ao Evil Ed ao invés de atacá-lo indefeso. Hello, Edward. You don't have to be afraid of me. I know what it's like being different. Only they won't pick on you anymore, or beat you up. I'll see to that. All you have to do is take my hand. Go on, Edward. Take my hand! O Jerry prefere conquistar o Ed do que matá-lo de imediato, mesmo podendo fazer isso. Claro que o personagem tem seus próprios planos por trás da proposta, mas o discurso de aceitação a alguém diferente é sedutor o bastante para Ed secar as lágrimas e ir para os braços do vampiro diante de si - e ao invés de termos uma cena de violência explícita e masculinizada, nós vemos um ataque, concluído fora das câmeras, no qual o subtexto sexual pode muito bem ser interpretado como um discurso de aceitação bem mais amplo do que o contexto apresentado no roteiro.

Em todos os momentos que aparece no filme antes do ataque, o Ed nunca se interessa por garotas - o filme não faz questão alguma de trabalhar isso - e também demonstra não ser o maior fã da Amy, fazendo de tudo para chamar a atenção do Charley à sua maneira - ele não assume, mas quer proteger o Brewster. O que lhe deixa mais irritado é ser chamado de Evil pelo Charley sempre que ele tenta se aproximar fazendo graça. Não é a maneira mais agradável de tentar fazer com que alguém note você, porém de que maneira ele poderia fazer isso sem conhecer outras formas de se relacionar com as pessoas? Como eu já mencionei, o discurso de aceitação do Jerry se torna mais amplo a partir do momento em que ser agredido e julgado por ser diferente não é uma exclusividade de arruaceiros como o Evil Ed. Também é algo pelo qual muitos gays podem se identificar desde o período de lançamento do filme até os dias atuais - E cá entre nós, se a amizade entre o Ed e o Charley não puder ser considerada uma relação de interesse platônico, eu não sei exemplificar qual tipo de relação poderia ser enquadrada nessa categoria.

Já na cena da discoteca, a fluidez sexual do Jerry se encaminha para o ensejo esperado pelo público em muitos filmes de vampiros, ainda que o contexto aqui seja relativamente diferente por não ser normativo. O nosso vampiro gostoso favorito busca seduzir a mocinha ingênua e consegue ser muito bem sucedido nisso, porém a construção da Amy ao longo do filme é o que renova o fôlego para essa cena. Não minto que eu acho a Amy bem irritante em vários momentos por ser bastante temperamental de pavio curto com coisas bem bobas, mas no final das contas ela é só a garota da casa ao lado tipicamente estadunidense que mal consegue se soltar para dar uns pegas mais fortes com o namorado - E eis que o Jerry aparece na sua frente na pista de dança, e a cena decorrente desse encontro é deliciosa. Ao som Good Man in a Bad Time, os dois se encontram, começam a dançar e toda a masculinidade trabalhada diante da câmera consegue ser um pouco de tudo, menos normativa: ao mesmo tempo em que o Jerry lança olhares, abraça por trás e passeia com as mãos pela Amy, a Amy também escorrega suas mãos pela bunda do Jerry, beija seu peitoral, desce até a altura da sua virilha e gira na pista de dança colada com seu affair no exato momento em que a playlist muda para Give It Up. No one's gonna tell me wrong from right // Lovin' you is all that matters // Baby I can't wait another night // I'll give it up, yes, sweet honey, you win // I wanna give in to temptation. O take da discoteca mostra uma relação de troca-troca entre os dois personagens que serve para a Amy amadurecer e ganhar confiança para exercer sua liberdade sexual, ao mesmo tempo em que ajuda o Jerry a mostrar mais uma faceta para destilar seu sex appeal onipresente - Aqui, de maneira mais explícita e convencional ao público do que em outras cenas, porém a mensagem final ganha outro sentido quando você saca que o personagem apresenta mais aspectos de fluidez sexual do que de heterossexualidade. Mais do que uma sexualidade masculina, a sexualidade do Jerry é híbrida: ele capta a atenção do Brewster, recebe o Ed em seus braços após aceitá-lo e atrai a Amy em um piscar de segundos. Ah, e eu quase me esqueci de mencionar a relação do Jerry com o Billy Cole - seu fiel escudeiro e protetor esquisitão - responsável por protagonizar a cena sugestiva de um sexo oral que o Tom Holland propositalmente enquadrou e os dois atores não perceberam do que se tratava. Fofo!

O roteiro do Tom Holland em A Hora do Espanto consegue ser extremamente divertido ao mesmo tempo em que é inteligente o bastante para ser autoconsciente e tratar vampiros fora da caixinha, respeitando detalhes envolvendo o mito das criaturas sobrenaturais apresentadas ao mesmo tempo em que busca dar mais propósitos para as mesmas quando estão em cena. É uma ideia formidável considerando que a produção do filme aconteceu em uma época onde os jovens não queriam mais ver vampiros ou matadores de vampiros, só se interessavam por loucos com máscaras de esqui assassinando virgens - Palavras do Peter Vincent, não minhas, porém concordo. Se para Rita Lee, não havia nada mais tesudo do que um vampiro que entra por sua janela e dá um chupão no seu pescoço, para mim, ser atraído pela janela indiscreta do Jerry Dandrige é um passatempo interessantíssimo para pescar subtextos queer que o terror cinematográfico consegue transmitir com eficiência para pessoas tão fluidas quanto o vampiro de A Hora do Espanto.

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