Titane : O espaço de conforto dentro do estranhamento social
- Fefa

- Nov 10, 2021
- 5 min read
It's very solid. It's titanium.

Boa parte das pessoas que sofrem um acidente de carro, e sobrevivem, na sequência do ocorrido apresentam algum tipo de trauma ou ansiedade com relação à veículos, evitando-os ou redobrando os cuidados ao dirigir ou entrar no carro como passageiro. É natural, compreensível. Porém não é o caso de Alexia. Ainda criança, sentada no banco de trás enquanto seu pai dirige, a pequena Alexia começa a fazer barulhos imitando o carro no qual está como uma passageira, aumentando o volume mais e mais na mesma medida em que seu pai aumenta o nível de estresse. É estranho no começo, mas parece que a garota está querendo que algo além do normal aconteça em seu trajeto. E acontece. O carro bate, a cena corta e vamos para um hospital, no qual a menina teve de implantar uma placa de titânio na cabeça para seguir sua vida após o acidente. E ao sair do hospital, ela corre para abraçar o mesmo carro no qual sofreu o acidente.

À primeira vista, a cena de abertura de Titane é até mesmo previsível para quem já assistiu a outros filmes. Contudo, a conclusão mostrando um abraço entre humana e veículo logo após a ocorrência de um evento de potencial traumático é incomum. E a direção de Julia Ducournau faz questão de expandir o afeto entre a garota - agora uma Alexia adulta - e os carros ao dar continuidade no filme apresentando um take inteiro dentro de um salão de automóveis no qual a protagonista dança de maneira sensual em frente aos veículos expostos ao público - majoritariamente masculino. Vários eventos vão surgindo diante da tela e cada segundo de Titane importa para o espectador. E não se trata de uma mera necessidade que os filmes possuem de prender o público, mas sim de um jogo turbulento que está repleto de armadilhas, reviravoltas e escolhas para apresentar sua figura central - já super citada - Alexia.

Assistir Titane talvez tenha sido minha experiência mais desconfortável de 2021. Tudo no filme é provocativo, violento e reconhecível. Isso porque há algo semelhante a um espaço de conforto dentro do estranhamento social que aparece constantemente na tela - seja pelos rumos que a Alexia decide tomar, quanto pelas escolhas de terceiros que impactam a protagonista da história em sua confusa existência. Vale muito mais a pena assistir ao filme do que pegar detalhes sobre o enredo, mas se eu fosse falar sobre o andamento de todo o espetáculo, eu poderia simplesmente dizer que grande parte do direcionamento aqui gira em torno da jornada de ocupação de território em sociedade por parte de quem nunca teve seu próprio território. Para quem está lendo e já assistiu ao filme, ou pretende voltar aqui após vê-lo, eu deixo adiantado que em momento algum relevo as decisões que a personagem central toma, mas não deixo de ficar fascinado pela forma como essas escolhas se desdobram e te jogam diante de situações e sentimentos dúbios sobre personagens fictícios e sobre si próprio.

O grande chamariz em torno de Titane está na conquista da Palma de Ouro em Cannes e na breve descrição de que veremos uma mulher transando com carros no filme. E sim, eu caí nesse chamariz como muita gente deve cair também. Porém há muito mais para puxar nesse fio. O desenho inicial de associação entre humana e máquina automobilística se inicia dentro de um estereótipo bem comum do audiovisual que encaixa mulheres e carros na categoria de objetos de desejo perante o olhar masculino. Os próprios veículos parecem funcionar como um espectro masculino o tempo inteiro em Titane. No entanto, se você puxar o fio junto da espetacular mente que está por trás da direção do longa, logo você verá essa aura masculina cair diante de uma existência queer. No fundo, Titane parece propor a ideia de jogar no ar o questionamento de ‘’O que aconteceria se carros fossem retirados do controle do homem?’’ - E o maior acerto está em usar do horror corporal, psicológico e sexual para apresentar ainda mais perguntas em cima dessa questão inicial e desenrolar uma trama inquieta e humanamente monstruosa na qual gênero, sexualidade e expressão comportamental são coisas construídas e destruídas constantemente devido à interferência externa e interna da vida à margem.

Desde que Hollywood entendeu que representatividade pode ser comercializada como uma versão branda e padronizada acerca de figuras que nunca se relacionaram com esse molde, ela atingiu ótimos resultados. E eu não tenho problema algum em presenciar coisas tipo Love, Simon, inclusive me diverti bastante com o filme - da série, eu passei longe. Porém se divertir é diferente de se reconhecer. Ser uma pessoa queer em sociedade é justamente não - poder, conseguir ou querer - se apresentar ao mundo com base em uma versão branda e padronizada em torno de sua figura pessoal, à margem de tudo isso. E há muito mais realismo na Alexia do que em outros personagens gostáveis do cinema higienizado e mecanicamente mercadológico, ainda que ela não seja a personagem mais defensável do mundo ou um exemplo a ser seguido. O twist está em dispor para os espectadores uma personagem que assume diferentes personalidades e identidades enquanto tenta procurar um espaço para si em sociedade. E há várias razões pelas quais ela não possui esse espaço próprio que podem ser jogadas em sua cara, mas também há um deslocamento desde a infância que é muito genuíno e foge do controle da Alexia, levando-a para cenários onde ela explora intenções assassinas, viciosas, violentas, grosseiras, nojentas, fetichizadas, desesperadas, agonizantes, dolorosas, sabotadoras, solitárias e reconfortantes.

Existe uma Alexia no acidente de carro do começo do filme, bem como há uma versão dela para a exposição de veículos, outra para o encontro com uma garota, mais uma para seu convívio com os pais, outra além na sua fuga foragida, ainda uma que é empurrada para ela por um automóvel e outra que foi empurrada por Vincent e seu batalhão de bombeiros - um bando de personagens masculinos liderados por um coroa durão - Vincent - que também rende umas belas puxadas de fio sobre masculinidade exacerbada, tóxica, possessiva, frágil e solitária ao conduzir a relação mais íntima da protagonista no filme. Pessoalmente falando, eu gosto de pensar nos dois específicos momentos em que Alexia dança ao redor de veículos e se funde a eles - e logo depois se funde de maneira ainda mais literal - em contraposição ao momento em que ”Adrien” dança e recebe uma resposta negativa dos olhares masculinos que o presenciaram e rejeitam a quebra de normatividade ocorrida dentro da coreografia - muito embora houvesse ainda menos representação de masculinidade em um batalhão descamisado se roçando, se socando e dançando colado do que no tal show solo em cima de um caminhão. Você irá entender quando assistir ao filme - e por ventura se identificar, assim como eu.

Fato, é que, ao ser uma pessoa queer em sociedade, você pode fazer escolhas, tomar decisões e tentar encontrar seu lugar, porém ele nunca virá de graça ou com aquela sensação de pertencimento que é natural para quem está de fora desse espectro identitário ¨esquisito¨ e marginal. Por isso, há sempre mais espaço de conforto para nós dentro do estranhamento, da monstruosidade e da involuntária solidão que estamos sempre tentando contornar, tal qual os personagens e as máquinas de Titane.



Texto maravilhoso como sempre Fefa. Tive a impressão de que as coisas tomam forma de maneira bem rápida e deixam o espectador um pouco surpreso com a evolução da história e com os choques também.