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The Weeknd, In Your Eyes : Slashers, moda oitentista e a subversão do tropo narrativo da Final Girl

  • Writer: Fefa
    Fefa
  • Apr 25, 2021
  • 5 min read

Updated: Nov 10, 2021

A minha relação com o The Weeknd é conturbada.

Eu conheço o Abel há alguns anos, mais especificamente desde a época em que ele lançava esse tipo de música e seu alcance era maior entre o público que gostava de R&B. De lá para cá, muita coisa aconteceu no meio do caminho - incluindo um dos melhores singles da Ariana Grande - e atualmente o The Weeknd é um dos grandes popstars do planeta. Existe algum problema nessa ascensão da carreira pop do Abel no mainstream? Não, absolutamente não. Porém outras coisas também ocorreram dentro desse período e se tornaram motivos pelos quais eu tenho minhas ressalvas ao falar do The Weeknd. Em resumo: não gosto de grande parte das letras que ele já mostrou ao público, muito menos do quão amargo e imbecil ele consegue ser quando alguma mulher chuta a sua bunda e segue em frente com a vida, sendo o maior exemplo disso a letra altamente misógina e repleta de problemáticas desse feat com o Gesaffelstein.

Em meio a vários versos de qualquer música sobre dor de corno, tendo em vista que a música é claramente sobre o término do relacionamento entre o Abel e a Bella Hadid, o que mais me chamou atenção em Lost in the Fire são as partes onde ele faz referências extremamente problemáticas à relacionamentos entre mulheres. "You said you might be into girls, said you're going through a phase. Keeping your heart safe. Well, baby, you can bring a friend. She can ride on top your face. While I fuck you straight". O The Weeknd nunca se desculpou pelo verso acima, muito menos foi cobrado para além de algumas pessoas na internet - em grande maioria, mulheres lésbicas e bissexuais - porém toda essa sentença da música consiste em dizer que a ex-namorada pode estar numa fase de talvez gostar de garotas, mas isso não é um problema já que ela sempre pode trazer uma amiga para o sexo entre os dois enquanto ele transa com as duas da maneira correta - sendo que “fuck you straight” é uma expressão recorrente entre homens héteros para se referir a estupros corretivos direcionados a mulheres que se envolvem com outras mulheres. Sim, eu dei razão ao The Weeknd no racismo escancarado que ele sofreu no último Grammy. Sim, eu também acompanho o que ele lança. Porém, não há como ignorar que ele falou meia dúzia de palavras extremamente problemáticas que fazem apologia a fetichização e violência à relacionamentos entre mulheres - E é daí que vem minha relação conturbada com o cantor.

Lost in the Fire foi lançada antes do The Weeknd começar a trabalhar o After Hours e se tornar o grande fenômeno pop que agora ele é. No mesmo ano em que ele lançou essa música com o Gesaffelstein, Blinding Lights e Heartless também foram lançadas com o espaço de alguns meses e eu só consegui ouvir as mesmas quando o álbum completo saiu. Eu consigo reconhecer a genialidade do The Weeknd em todo o trabalho visual e musical no qual ele propôs que o After Hours vivesse - embora o álbum em si só funcione comigo pela metade, já que eu não gosto dele por inteiro - porém, quando ele acerta, ELE ACERTA!!!

Blinding Lights é sim toda essa Coca-Cola no deserto que foi vendida como ápice do synthwave, tendo ainda inspirado a criação de algumas irmãs no K-Pop. Save Your Tears é a midtempo casual extremamente nostálgica da playlist que se torna favorita de cara, enquanto Hardest to Love é a reminiscente da sonoridade do Starboy que forma uma bela casadinha com Scared to Live, a balada que mais gosto do The Weeknd em toda a carreira dele por ter um sample elegante de Your Song do Elton John. A ponta dianteira e a traseira do After Hours também fazem muito minha cabeça. Não penso em abertura melhor que Alone Again nesse álbum, assim como a faixa-título é uma experiência deliciosa do começo ao fim. Contudo, o grande momento do álbum é In Your Eyes.

In Your Eyes reúne em seus quase quatro minutos de duração tudo aquilo que eu mais gosto em uma música pop oitentista: o synthpop em sua forma mais pura está aqui, a sensualidade casando com a nostalgia naturalmente, bem como o refrão matador e a presença clássica e datada de um belo solo de saxofone. Enquanto música, In Your Eyes é imensa e eu elegi como meu single favorito do After Hours. Entretanto, o que impulsiona e dá outra cara para essa pérola é seu clipe repleto de significados para um fã de slashers, como eu aqui.

Protagonizado por Zaina Miuccia e trazendo o Abel encarnando a figura do Serial Killer imbuído de um facão branco à espreita no elevador, tal qual um Michael Myers em Halloween (1978), o clipe de In Your Eyes é um retrato fantástico de toda a cultura de filmes slasher ao mesmo tempo em que consegue subverter alguns dos seus clichês. O tropo central de apresentar uma Final Girl que irá lutar contra a ameaça iminente e tentar sair com vida a todo custo - na maioria das vezes obtendo êxito - ganha um novo sentido quando damos de cara com uma protagonista negra, igualando-se à figura do The Weeknd que também foge da imagem de um assassino branco, mascarado ou fisicamente deformado. A dinâmica entre as duas figuras se desenvolve com o tradicional jogo de perseguição entre Serial Killer e Final Girl, com Zaina se aventurando por todos os cubículos possíveis de uma cidade vazia e Abel mantendo-se em seu encalço, como o já citado Michael Myers faria. A perseguição entre os dois acaba dentro de uma balada nomeada como After Hours e a paranoia da protagonista ganha uma forma ainda mais ameaçadora em meio a tantas pessoas dançando, motivo pelo qual a mesma foge para outra área do prédio - que pode te lembrar das usinas industriais presentes nas sequências de pesadelo provocadas por Freddy Krueger em A Nightmare on Elm Street (A Hora do Pesadelo, 1984). Munida de um machado, Zaina se espreita entre os canos e instalações do prédio e não pensa duas vezes antes de decapitar seu perseguidor quando o mesmo tenta um ataque direto - qualquer semelhança com as sequências do assassino de Silent Night, Deadly Night (Natal Sangrento, 1984) não deixa de ser intencional aqui. Segurando a cabeça decepada do The Weeknd, o resto do clipe alterna entre cenas da protagonista dançando na balada e girando pelas ruas, emulando a imagem do Leatherface ao final de The Texas Chainsaw Massacre (O Massacre da Serra Elétrica, 1974) - E assim a Final Girl vence mais um round na história dos slashers, com a diferença do tropo narrativo do clipe apresentar figuras negras em posições que o terror geralmente não as coloca.

In Your Eyes é um capítulo separado dentro da sequência narrativa que o The Weeknd criou para seu After Hours, elevando o nível da construção visual do álbum ao mesmo tempo em que coleciona referências dos Anos 80 de forma estética e sonora. Podia ser só mais um clipe pop que existe por obrigação, mas isso aqui ganha um novo sentido quando pessoas que não dispensam um bom slasher se deparam com ele. Pontos para o lado genial do The Weeknd - entregues ao cantor por alguém que nunca irá ignorar sua persona pop, mas sempre terá ressalvas quanto ao seu histórico de problemáticas. __________________________________________________________________________________ Bonus FLAC : In Your Eyes (Remix) [feat. Doja Cat]

Apesar de ser minha música favorita do After Hours, eu raramente ouço In Your Eyes da maneira que saiu no álbum. Já esse remix com a Doja Cat, esse sim marca presença na minha playlist. A Doja caiu como uma luva nessa música e eleva o nível do jogo se mostrando a grande most valuable player que ela é, servindo um rap afiadíssimo na sequência em que apresenta novos versos cantados - e eu nunca me cansarei do timbre de voz que ela tem. Se você ouviu o remix do Abel com a Ariana Grande para Save Your Tears, vale a pena conferir esse aqui também e adotar como a versão oficial de In Your Eyes.

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