Duda Beat, Meu Pisêro : Kill Bill, artpop e memória afetiva
- Fefa

- Apr 16, 2021
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Duda Beat é um caldeirão de referências.

Voltando no tempo até julho de 2018, quando Duda tinha acabado de lançar o clipe de Back to Bad e vinha alcançando alguma popularidade com seu primeiro álbum, Sinto Muito, eu consigo me lembrar perfeitamente da sensação de nostalgia imediata que eu senti assim que dei o play no vídeo abaixo.
O marco cultural dos Anos 80 na história da arte, os signos da cultura post punk, a estética glam rock e a linguagem artpop marcam presença no clipe de Back to Bad como se fossem um soco de memória afetiva em quem assiste.
É tudo imediato - A introdução na guitarra, a construção épica da melodia, os versos matadores sobre estar na merda e o refrão que você canta a plenos pulmões: todos esses elementos estão aqui e estão dispostos a se agarrar em qualquer pedaço de nostalgia que está dentro de você que acabou de chegar nessa música.
O clipe em si é simples. Temos em cena a persona da Duda Beat vestindo diferentes roupas, se posicionando para a câmera nos mais diversos ângulos de uma filmagem que oferece closes no rosto e nos lábios da cantora, acompanhada de uma série de visuais banhados predominantemente em vermelho, dando ainda mais destaque ao aspecto de interpretação clássica, vintage, camp.
“Eu nunca fui tão humilhada nessa vida por você, meu amor” - Aqui, o ponto de partida da música é a cartada final do relacionamento. Já em Meu Pisêro, o início vem logo após o desgaste da relação.

Minha memória afetiva com a Duda Beat é um ponto bastante especial. Ouvi o Sinto Muito de cabo a rabo por meses quando conheci, peguei alguns shows e me relacionei com diversas letras cantadas por ela dentro do álbum.
Essa construção de memória com o trabalho da Duda talvez seja o maior objetivo de uma artista tão referencial quanto ela: só quem entende o quão épico é usar do passado para entender seu presente, pode ter como missão causar uma lembrança marcante de cara, no primeiro play, assim como aconteceu com Back to Bad para mim.
Eu gosto de considerar que o trabalho visual em torno do Sinto Muito foi um cartão de visitas. Os símbolos estão lá, as referências são nítidas e os mais aficionados pelas mesmas irão reconhecer de prontidão. Porém, em Meu Pisêro, o que ocorre é um resumo de tudo aquilo que Duda Beat é, bem como um prólogo de quem ela ainda pode ser.
Enfim, a estética do horror encontra a cultura da música pop. O enquadramento do clipe de Meu Pisêro remete à televisão que suga a menina de Poltergeist (1982), referenciada em vídeo diversas vezes. Também temos diversas cenas da porta de entrada da casa, semelhante à porta da casa de A Hora do Pesadelo (1984). Novamente, o vermelho marca presença como elemento que reforça a estética, dessa vez em cenas com um sangue vermelhaço que escorre em tela, assim como em Suspiria (1977). Esse apanhado de referências para filmes clássicos do horror em tela, encarregados de entregar no tempo de duração do clipe toda a estética que a Duda Beat quer vender, é a desculpa mais adequada para ampliar o leque de visuais que a cantora já desfilou em seus trabalhos. É aí que está a síntese do artpop de Duda Beat: se valer do passado para dar um novo significado ao seu momento atual, largando da perna e do braço que pegava para segurar quem não estava mais ali - mas que ainda está na memória afetiva, e provavelmente por lá ficará. Se Meu Pisêro fosse uma resposta declarada para Back to Bad, o ciclo pós-Sinto Muito está concluído com Duda ainda se valendo da estética oitentista, dos closes em seu rosto marcante e do cabelo mega platinado (Debbie Harry - musa artpop, glam rock e post punk, nas horas vagas vocalista do Blondie - usava do mesmo charme para intensificar sua performance, e não é diferente aqui). Na minha cabeça, Meu Pisêro ainda cumpre essa função e Duda Beat sabe disso. E sabe tão bem a ponto da música apresentar um sample do tema mais icônico de Kill Bill (2003 e 2004) - sim, eu sei que você também pensou nos segundos iniciais de Ironside quando o refrão chegou. Coube à Duda Beat ser a pessoa responsável pela combinação, tão pontual quanto o mesmo intervalo de cortar o contato com uma nova memória afetiva deletando o número e excluindo das redes sociais para esquecer do que se acabou de vez, aos pedaços, sem ninguém levar a culpa por não amar assim.



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