Olivia Rodrigo, good 4 u : Garota Infernal, o corpo de Jennifer e pós-término
- Fefa

- May 21, 2021
- 5 min read
Updated: Nov 10, 2021
“you’re killing people”
“no, i’m killing boys”

Términos são complicados. Por experiência própria, são como um convite ao inferno no qual você afunda até não ter mais chão e depois vai subindo de volta pra superfície variando entre estados de tristeza, luto, drama, raiva, amargura, ansiedade, tesão, solidão, insegurança e mais uma porrada de sensações que tornam o processo caótico por completo, em todas as suas fases.
Dito isso, o processo de término e, mais propriamente, pós-término da Olivia Rodrigo é bastante interessante de analisar até então:
Eu gosto de enxergar os dois primeiros singles da Olivia como dois olhares contínuos para uma mesma história: o término do namoro dela com o garoto com quem ela contracena na série da Disney e que agora está com a Sabrina Carpenter.
drivers license é uma estreia bem legal. Faz jus ao hype levantado em torno da Olivia enquanto música, alimenta o show midiático que virou a troca de farpas do trio citado acima e ainda é um bom aceno para a sonoridade e maneirismos que a Lorde segmentou na indústria pop com a Alessia Cara e o Troye Sivan, até chegar na Olivia.
Já deja vu é a sequência colada na historinha de término, mostrando todo o ressentimento que veio após a tristeza do fim da relação. É uma ponte muito bem construída entre os dois singles e eu simpatizo com a Olivia desde que conheci ela através das duas músicas, mas foi good 4 u quem me fez confiar nela como algo além do pop legal que ocasionalmente bate na minha playlist:
O processo de término de uma relação sempre vai te afetar como pancada, mas ele é imediato e passa tão rápido que muitas vezes nós nem nos damos conta de que acabou. É o processo de pós-término, aquele onde a gente fica remoendo sentimentos, que permanece pairando nos momentos seguintes ao desfecho de um namoro, casinho, amizade ou qualquer que seja o laço, e também é ele quem se encarrega de dar novos rumos para nós.
good 4 u vai direto ao ponto ao ignorar o lado melancólico das lembranças mencionadas em drivers license e sair da nostalgia meio amarga, meio doce de deja vu. Aqui, o rumo seguido é o mais puro sentimento de ‘’puta que pariu o que foi que aconteceu e por que caralhos eu estou no meio disso?’’ que sempre vai bater no pós-término. E o exemplo da Olivia não é de hoje, a música pop nos traz isso há décadas:
Se lá nos anos 90, o No Doubt e o Hole tinham vocalistas que pegavam todo o cinismo, raiva e putaço que sentiam para enfiar nas letras e visuais das suas respectivas bandas, nos dias de hoje a Olivia Rodrigo usa a mesma base para seguir seu processo de pós-término, puxando ainda outras referências - de Paramore à blink-182 - e recriando essa atmosfera punk-pop-rock com bastante efetividade para conversar tanto com quem está aqui pela música, quanto com os aficionados por Garota Infernal - Eu me insiro em ambos os grupos.

Garota Infernal, ou Jennifer’s Body, é um dos meus filmes favoritos. Ponto. Toda vez que eu revejo, eu pego um novo detalhe. Toda vez que ouço alguém falando sobre ele, eu interpreto uma coisa diferente. E eu aceitei recentemente que nunca conseguirei fazer um texto completo sobre ele, mas eu posso espalhar meus pensamentos sobre esse filme em uma porção de textos diferentes - E isso é uma prévia dos próximos capítulos. Protagonizado pela Megan Fox e pela Amanda Seyfried, o Garota Infernal gira em torno de duas personagens femininas - respectivamente, Jennifer e Needy - e aborda o horror por uma visão feminista, bem como contém uma série de tramas secundárias que podem ser ampliadas e interpretadas de múltiplas formas. No clipe de good 4 u - volta lá em cima para ver - há uma enxurrada de referências para o Garota Infernal. Seja pela persona vendida pela Olivia que vaga deslocada pelos cenários escolares - tal qual a Jennifer em um primeiro momento de possessão por um Succubus - ou pelas cenas no quarto se maquiando - Jennifer, novamente, queimando sua língua na frente do espelho - ou ainda pela cena final mergulhando no lago - não vou me repetir dizendo que a Jennifer possui um take igual, mas tem - Garota Infernal vive dentro desse clipe do começo ao fim. Tem espaço para referências de Um Diário de Princesa e Audição, mas é o filme da Jennifer e os paralelos com a construção da Needy enquanto personagem que se amplificam e fazem valer a pena ir mais fundo e comparar as narrativas pós-término mostradas na referência e no produto presente.

No filme, Jennifer e Needy são melhores amigas desde a infância. Estão sempre juntas na escola, nos finais de semana, nos passeios. São as típicas BFFs que usam até mesmo um colar de amizade. Tudo lindo, até você reparar em como a Jennifer é sempre dominante na relação e a Needy é sempre quem precisa se dispor aos seus comandos.
A amizade das duas personagens podia tomar um rumo convencional onde elas brigam e se separam por motivos idiotas, tipo disputar algum moleque feio, mas aqui o motivo do distanciamento é uma possessão demoníaca aliada ao início do ciclo de matança de garotos por parte de Jennifer.
Quanto mais distantes elas estão uma da outra, mais fortes são os sinais de que a amizade entre as duas nunca foi saudável. Sempre houveram competições veladas e micro agressões. E esse é o ponto do pós-término: conseguir se distanciar da situação comum e passar a enxergar as coisas que estão acontecendo continuamente e não deveriam.
Na mesma medida em que a Needy começa a reparar no quão abusiva era sua amizade com a Jennifer, e passa a assumir suas próprias rédeas para encarar a serial killer de garotos da cidade - St. Jude, patron saint of hopeless causes, please give me the power to crush this bitch - a Olivia, nesse single, consegue criar a distância necessária para visualizar as falhas do seu antigo namoro e se dar o direito de ficar putaça e ser mais independente após a separação.
A independência da Olivia em good 4 u chega a ser banal, mas é a banalidade pura e simples de quem estava tão enfiada numa relação fracassada que agora quer sugar toda e qualquer bobagem até a última dose. Então, sim, ela passa a usar luvas pretas de látex, começa a passear pelo mercado atrás de gasolina e batatinhas chips, faz uma maquiagem seguindo tutoriais da internet e queima o quarto inteiro só pela graça de cometer pequenas vinganças e de poder se enxergar melhor estando fora da relação - good for her. Minha experiência pessoal concorda que pequenas vinganças que nem chegam no seu ex sempre são deliciosas, ainda mais porque a gente investe nelas mais por nós mesmos e confiamos que em algum momento elas chegarão.



ela não tinha obrigação NENHUMA de fazer a música do ano, te amo olivia te amoooo!!! e garota infernal é tudo!!! um marco na indústria. amei esse paralelo incrível fefa ❤️