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MaXXXine : 'POV', trilogias e estrelato

  • Writer: Fefa
    Fefa
  • Jul 5, 2024
  • 4 min read

Eu não me imaginava voltando a escrever em um espaço particular tão cedo. Não por falta de vontade ou desinteresse, mas sim por ter começado a apresentar meus pensamentos sobre horror e cinema de outras formas que parecem mais viáveis. Mas achei simbólico retomar aqui pelo contexto do filme em questão e de como o assisti. É 2024 e eu pela primeira vez pude conferir um filme em cabine de imprensa antes da sua estreia. É também o ano em que Ti West e Mia Goth concluem a trilogia que iniciaram juntos anos atrás. Igualmente simbólico. As coisas mudaram muito no meu senso criativo, de um jeito que muito provavelmente eu não iria gostar de revisitar algumas leituras publicada no site - mas todas elas contribuíram pra essa mudança e isso é algo que eu não quero e nem irei ignorar, só não posso estar fincado nesse mesmo lugar. E acredito que a dupla Goth e West pense semelhante com 'MaXXXine'.


'MaXXXine' é um filme que adentra a trilogia dirigida por Ti West com um panorama singular. Ele não chega de primeira apresentando ideias que ninguém poderia esperar como 'X', tão pouco desvia a rota para outro percurso e dobra a aposta do público tal qual 'Pearl' - Nesse terceiro filme, lidar com o estrelato e os pontos de vista é um exercício constante. Todos os aspectos em torno de 'MaXXXine' são maiores: elenco maior e com mais nomes conhecidos, produção maior e com muito mais cenários e setpieces, distribuição maior e, é claro, expectativas também maiores sobre o que deve sair desse capítulo final - Um veredito sobre isso? Aqui, mais do que nos outros filmes, os aspectos que eu mencionei se tornam um veículo pra entender que o cinema de horror precisa de mudança.


Se em 'X' nós tínhamos um massacre isolado numa fazenda e em 'Pearl' um estudo de personagem por completo, em 'MaXXXine' o massacre é generalizado e o estudo de personagem está em andamento com a força motora que carrega o filme - Não é apenas a Maxine Minx que possui um diferencial, a Mia Goth é a razão pro filme se ancorar com sucesso no terreno incerto de teorias, apostas e torcidas para o que deveria, ou não, acontecer no desfecho dessa trilogia. A Maxine não é mais a mesma figura apresentada em 'X'. Entretanto, não é por ter se tornado uma personagem marcada pelo caso violento do qual foi sobrevivente. No hall de final girls do horror, ela se encaixaria numa posição muito interessante ao rejeitar ser vítima. O trauma existe? Sim. Mas em contraposição ao que ficamos cansados de ver em outras franquias com protagonistas que só falam sobre o quanto seus episódios traumáticos lhe tornaram mais vulneráveis, a Maxine pega tudo o que ocorreu e esmaga pisando no acelerador - Ela agora está ainda mais confiante, convencida e objetiva na convicção de ser uma estrela.

Todos os olhares do roteiro à direção estão na Mia Goth como Maxine em '85 - E mencionar o ano representado é decisivo pois o segundo foco do Ti West é a reprodução do período adaptado. Os três filmes da trilogia se propõem a bater no liquidificador um caldeirão de referências cinéfilas, estéticas, sonoras e visuais da época fetichizada pela lente da direção no momento. Então, sim, aqui você vai ver respiros muito intensos daquilo que o Brian DePalma e o Dario Argento produziram na época - e os dois diretores em questão também são conhecidos por esses quesitos. Mas talvez o que mais me pegue aqui, seja 'Pânico 3'.

Sempre irei defender que 'Pânico 3' ainda não recebe as menções e reverências que merecia. Ele conta com um certo senso de desprendimento quando comparado aos outros filmes que o Wes Craven dirigiu pra franquia que é único dele, por ser um filme que também lidava com estrelato. É um estrelato não só na trama que gira em torno da produção de um filme sobre a Sidney, mas também na imensa dificuldade que existiu de reunir um elenco principal que se tornou cada vez mais famoso, atender expectativas de fãs cada vez mais ansiosos, driblar vazamentos que dificultaram as filmagens e encerrar uma história que está sempre na beira do descontrole de escala. E ainda que tenha sido produzido sem enfrentar esses mesmos problemas, 'MaXXXine' faz o mesmo que ‘Pânico 3’ fez, do começo ao fim. Para além das referências de giallo, da exposição do pânico satânico dos anos 80 e de toda a iconografia marcante dessa época - e tudo isso está impresso no filme de forma inegável - há um senso de condução muito consciente de que seria impossível atender a todos os desejos e pedidos de quem chegou até aqui pelos filmes antecessores. Novamente, o cinema de horror precisa de renovação. 'MaXXXine' acerta quando se renova, tropeça bem pouco enquanto desfila por suas referências e dá um deslize no clímax - que poderia ser ainda mais explosivo e 'over the top', afinal, anos 80! Mas objetivamente falando? Ela é uma estrela! - E ver um filme que se desafia a incluir mais novidades na bagagem do que repetecos, carregando consigo uma marca popular no cinema de horror atual, é o que faz surgirem novos clássicos. Espero que isso nunca acabe.


 
 
 

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