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Até os Ossos : A solidão do coming of age dentro do New Queer Cinema

  • Writer: Fefa
    Fefa
  • Dec 11, 2022
  • 5 min read

Do I seem nice?

Há alguns meses, a Björk lançou um álbum novo chamado Fossora e aproveitou a oportunidade de voltar aos holofotes produzindo um podcast inteiro dedicado à sua discografia. Dele, logo na apresentação do primeiro episódio sobre o Debut, a Björk sentenciou uma das coisas que mais ressoaram comigo ao longo de 2022: "A maioria de nós passa por fases da vida que duram cerca de 3 anos e não é uma coincidência que, frequentemente, esse também seja o tempo para fazer um álbum, um livro ou um filme". Vários dos motivos relacionados à minha ausência desse site até a postagem desse texto está associada com as mudanças pelas quais minha vida passou esse ano - algumas melhores que outras, outras tantas piores do que algumas. Em todo caso, foi um ano onde me apegar ao cinema, aos álbuns, aos relacionamentos e oportunidades que foram surgindo para que eu saísse de um ciclo infernal que começou em 2019 e afundou em 2020 e 2021 foi um dos meus passes para chegar até uma nova fase de três anos agora em 2022. 2022 foi especialmente produtivo para tudo que há na arte e na vida que me atrai, indo desde os lançamentos na música e no cinema, à realização de shows e festivais em que eu estive presente, os eventos inusitados (eu conheci a artista da minha vida pessoalmente esse ano) e a entrada - e saída - de pessoas da minha vida. E, por mais que toda essa exposição minha pareça desconexa até aqui, tudo isso tem sim a ver com Até os Ossos.

Até os Ossos talvez não seja ainda a minha última experiência de sala de cinema em 2022, mas assistir a ele serviu de conclusão para o hiatus que eu tirei de tudo aquilo que estava incerto para mim em tempos recentes. Em partes devido ao fato dele ser um road movie que trabalha o coming of age de jovens adultos desconectados com a realidade ao redor deles, mas também porque com esse filme eu confirmei que meu tipo de romance favorito sempre estará associado com o diferente, absurdo, esquisito, intenso e monstruoso. Nesse caso, não é como se o charme principal desse filme estivesse atrelado ao tema do canibalismo que permeia todos os pontos possíveis ali dentro - o acerto aqui é usar de uma temática marginal, criminosa e violenta para cavar fundo em personagens com os quais você irá se relacionar, querendo ou não.

O Luca Guadagnino é um diretor que já me fisgou - Suspiria - e também já me perdeu - Me Chame Pelo Seu Nome - então posso dizer que minha relação com o cinema que ele produz é bastante radical no gostar e desgostar. Ainda assim, eu sempre me sinto tentado a assistir ao que ele cria por saber que sempre me deixará uma impressão a ser decifrada após a experiência. Partindo dessa lente, Até os Ossos é o filme melhor cravado do Guadagnino entre os que assisti. É uma combinação entre a atmosfera romântica que ele sempre carrega para os roteiros que seleciona dirigir e a tensão do horror que ele ama provocar no espectador, abrindo também um espaço de criatividade muito mais interessante nas subjetividades de interpretação daquilo que você está vendo em tela. Esse espaço está principalmente relacionado com as escolhas que o Guadagnino toma para desenvolver a Maren (Taylor Russell), mostrando a personagem à partir do final da adolescência e acompanhando sua transição para a vida adulta depois de passar por uma série de eventos que definiram seu caminho sem que ela tivesse qualquer controle sobre o mesmo. O filme se concentra - em alguns momentos de maneira mais direta e em outros mais sútil - em retratar essa jornada atravessada pela Maren explorando sua relação com os pais, o desenvolvimento da sua sexualidade, do seu impulso canibal e de todas as inseguranças que envolvem estar sozinha no mundo tentando configurar o que é ser uma pessoa - seja marginal, ou comum. E é no meio desse caminho que entra o Lee (Timothée Chalamet).

O Lee é uma figura um tanto mais velha, porém tão desconjuntada no mundo quanto a Maren, tendo já entendido parte daquilo que ela ainda irá viver para descobrir. Ao mesmo tempo, há um certo fio de ingenuidade na personagem que em algum momento não especificado foi perdido por ele e que agora é recuperado em doses pela dinâmica criada entre o casal. Os dois se conhecem, se unem, se apaixonam, se desconfiam e se consomem em uma medida da qual não é possível impedir de chegar até seus ossos. Tem a ver com toque, intimidade, solidão à dois, com o desespero da incerteza de estar vivo, criminoso, e a inevitabilidade de se perder ao atravessar a pele da outra pessoa - E aqui, isso não é feito só de maneira literal e canibal, mas também de maneira figurativa, torta, crua, identificável. Há muito de New Queer Cinema dentro desse filme - um movimento artístico e criativo de essência queer, consequente do cinema independente dos anos 90 que foi encabeçado por uma série de cineastas que possuem uma marca eternizada em influências no que vemos hoje - geralmente e infelizmente, diluído, vazio e sem nervo em produções maquiadas como sendo queer. Para quem quiser um pedaço de New Queer Cinema, a maior associação entre Até os Ossos com esse cinema é o The Living End do Gregg Araki, um outro road movie solitário e romântico onde o final é inevitável, mas que o trajeto até ali não deixa de ser lindo. Contudo, com tudo que citei, eu estou feliz que o Guadagnino sabe fazer esse “resgate queer” não-anunciado sem maquiagem, assimilação ou vontade de agradar a um público geral.

Criar um filme queer por essência, moldando sua visão de cineasta de acordo com a brecha de solidão à dois encontrada no tema do canibalismo é quase como armar uma gigante armadilha para que seu público - aquele que realmente pode se identificar com Até os Ossos - se deixe tropeçar no final. Todo o estado de espírito livre que envolve as cenas em que a Maren e o Lee estão dirigindo, cruzando estados, criando suas regras, vivendo um romance improvável enquanto se é jovem e fugindo do cotidiano do qual eles deviam se condicionar à viver é contagiante por si só, pulsa forte em forma de desejo dentro de qualquer pessoa que se sinta deslocada da sua própria rotina, e felizmente existe o cinema para imaginar esses sentimentos e materializá-los para todos aqueles que não tiveram suas chances - A Maren e o Lee também não são campeões em oportunidades, mas como é bom ser romântico, não é mesmo?

 
 
 

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