Hellbent : jovens gays na década de 2000, assassinos fetichistas e cabeças decepadas
- Fefa

- Jun 30, 2021
- 9 min read
At least they died doing it, right?

Antes de começarmos, uma breve apresentação: Hellbent é um filme de terror de 2004. Anunciado e divulgado como o primeiro filme slasher gay da história em sua época de lançamento, eu considero mais comum encontrar quem não o conheça do que o contrário, mas ele conseguiu se tornar um filme cult com o passar dos anos.
E tão simples quanto pode parecer a premissa, é sua realização - Hellbent é um slasher bastante convencional em sua formulação básica que inclui todos os tropos narrativos, estereótipos, problemáticas e pontos divertidos que uma centena de outros filmes do subgênero também apresentam.
No entanto, a transposição dos esquemas de um gênero do horror marcado pela heteronormatividade para uma outra lente cinematográfica, trabalhando uma visão queer da coisa toda, faz com que valha a pena se aventurar um pouco mais fundo nessa bagaça.

Hellbent nos apresenta à quatro personagens que formam um grupo de amigos. Começando pelo protagonista, Eddie é um aspirante a policial que sonha em dar muito orgulho para seu pai atuando dentro da corporação como um membro importante.
Ao lado do protagonista nós temos o twink solitário Joey, o padrão que faz drag Tobey e o rolêzeiro sexualmente ativo Chaz. Juntos ao Eddie, o grupo de amigos decide se fantasiar e sair para aproveitar um carnaval de Halloween que está acontecendo no centro da cidade na data anual favorita do Michael Myers.
Contudo, na madrugada que antecede a ocorrência dessa festa, um casal de namorados foi morto em uma região afastada da cidade tendo suas cabeças decepadas por um assassino misterioso. Ambos eram jovens e gays, tal qual o grupo de amigos mencionado anteriormente, então você já consegue imaginar o que vem pela frente - E vem isso aí mesmo.

Embora eu conheça Hellbent há alguns anos, eu parei para assistir ao longa apenas há alguns meses - depois de rodar a internet quase inteira em busca de uma versão com qualidade um pouco mais decente desse filme. Não digo que foi uma experiência que transformou minha vida da mesma maneira que A Hora do Pesadelo Parte 2 fez, mas eu me peguei pensando nesse filme desde então.
Tudo em Hellbent consegue soar datado de maneira precisa. A metade inicial da década de 2000 habita dentro desse filme a ponto dele soar quase como se fosse um episódio perdido de Queer as Folk. Entretanto, todavia e porém, isso não impede que muitos aspectos do filme também ressoem com tempos mais atuais.
Partindo da ideia de recriar estereótipos do cinema slasher, o diretor Paul Etheredge-Ouzts fez a lição de casa básica e buscou formas de situar personagens gays dentro de um filme de terror contemporâneo à época no qual a contagem de corpos está para aumentar a qualquer momento.
Com isso, nós deixamos de lado a Final Girl e acompanhamos um Final Boy (Eddie), o papel da melhor amiga ingênua da protagonista se transforma no twink virginal e engraçadinho (Joey), a figura do personagem que só pensa em sexo se concentra no mais descolado do grupo (Chaz) e aquele coadjuvante que paga de inteligente e depois morre por deslize é encarnado de uma maneira mais queer pelo personagem que fecha o quarteto (Tobey) - Outro ponto onde o filme se iguala a outros slashers é a total ausência de personagens negros, gordos e demais minorias raciais, então nem tudo é tão diferente assim.

Feitas às devidas apresentações e contextualizações sobre o filme, Hellbent é trash, extremamente divertido e, em muitos pontos, identificável.
Assistindo ao filme eu comecei a associar vários trejeitos de personalidade, hábitos sociais e relações apresentadas pelo quarteto de amigos com uma parcela bem grande dos meus amigos mais próximos. Isso porque muito da vivência em espaços gays e do contato com pessoas queers que o grupo apresenta se comunica diretamente com o que eu e muitos amigos vivemos.
Há algo de muito interessante na ideia de juntar personagens que trabalham pontos muito específicos da vida de pessoas reais que não costumam se ver representadas no cinema, em especial dentro do gênero de horror que ainda apresenta uma defasagem incômoda de figuras LGBT+, mesmo que o resultado final de Hellbent não seja primoroso.

Hellbent é um filme de baixo orçamento que surgiu da premissa literal de fazer um slasher com personagens gays. Embora não haja problema em trabalhar um ensejo de roteiro com essa visão, não é como se os envolvidos na criação do filme estivessem muito interessados em se informar sobre pessoas LGBT+ - e talvez eles nem mesmo sejam pessoas LGBT+, e eu coloco ênfase nessa possibilidade pois é muito difícil achar informações sobre a equipe de produção do longa dado o seu alcance pequeno.
Ainda assim é bastante curioso ver que o filme não é uma sátira tão fora da realidade - Não à toa eu consigo me relacionar com a trama a ponto de me inserir junto de amigos no universo no qual ele está ambientado - assim como ele também não peca exagerando demais no uso de alguns estereótipos negativos e problemáticos, embora eles também estejam aqui dentro.
Talvez o que faça com que o filme seja bem sucedido em ser um entretenimento legal e, até certo ponto, coerente, seja a boa sacada de não fazer da sexualidade um dilema ou um martírio punitivo, e sim torná-la um recurso de ambientação dentro de um cenário slasher.

Um grande problema entre as produções que apresentam personagens gays é a repetição do tropo narrativo de tornar a sexualidade um tabu, uma descoberta que deve ser varrida pro tapete até rolar algum momento de saída do armário, ou partir para dramas envolvendo homofobia, violência, pressão social e variações desse enredo.
Em Hellbent, do momento de apresentação dos personagens até o final do filme, esse tipo de narrativa não ocorre no desenvolvimento de nenhum personagem e mesmo o lado mais violento do filme não recorre a ela, ou dá margem para uma associação com a mesma.
O filme abre com uma cena de um casal de namorados transando no carro com direito a representação de fetiche por pés e insinuação de sexo oral.
Depois quando o Eddie entra em cena, ele aparece ao lado da irmã que faz uma série de brincadeirinhas sobre ele ser gay, sem julgá-lo ou diminuí-lo, e sim incentivando o irmão a sair pegando geral. Na sequência temos um pequeno ponto dramático mostrando a insegurança do personagem para flertes e o sonho que ele possui de ser um policial reconhecido para que o seu falecido pai fique feliz, porém esse objetivo não tem relação com a sexualidade em si.
Um a um os outros personagens vão entrando no filme também tendo sua sexualidade muito bem resolvida. Chaz aparece transando - com um homem e uma mulher, afinal ele não só é o amigo sexualmente ativo, como também é bissexual - Joey está no trabalho e mais tarde está tentando se enfiar em uma roupa de couro apertadíssima - Troye Sivan sentiria orgulho - e Tobey faz sua grande entrada já montado como drag queen - e ele tá a cara da Aretuza Lovi.
Desde o começo, os personagens são jovens gays - e reforço, um bissexual, logo mais você entende - em busca de diversão enquanto tentam lidar com suas questões pessoais. Nada muito profundo ou super bem trabalhado, mas ainda assim válido e identificável.

Em contraponto a essa busca por diversão dos quatro amigos nós temos o grande assassino do filme - Ele não tem nome, ele não tem rosto, mas ele tem um corpo sarado, abdômen trincado, usa uma máscara de diabo e gosta de decepar cabeças de jovens homossexuais.
E é claro que logo após esse assassino matar o casal de namorados na cena de abertura em um local remoto, a mãe da merda em filmes de terror se manifesta quando o grupo de amigos inventa de ir para o mesmo local onde o crime ocorreu. E lá eles se deparam com o assassino no meio do mato, provocam o dito cujo mostrando as bundas só pela graça de ter um pouquinho de nudez masculina no filme e ficam marcados pela figura que depois os segue até a festa de Halloween no centro.
A partir desse momento, ocorre o ponto alto de Hellbent enquanto um filme que combina slashers com um universo de cultura queer pois é quando ele consegue engatar sua história de maneira divertida, fazendo do seu baixíssimo orçamento e seu bom posicionamento de personagens para criar situações que entretém o público mirado pela produção.

Se alguém chegasse em mim e falasse que Hellbent foi filmado em um TekPix, eu acreditaria. Não há um grande trabalho de direção, caracterização, montagem, iluminação e fotografia já que é visível que quem gravou o filme foi com o que tinha para fazer ele acontecer, mas isso acaba rendendo boas escapatórias para incrementar o horror da trama.
A ambientação do Halloween em uma festa noturna é sempre o tipo de espaço que favorece a violência em filmes de terror. Quando essa ambientação é cercada por uma cultura queer latente, com os quatro amigos indo parar em um carnaval repleto de homens vestindo roupa curta, fantasias que despertam fetiche, drag queens, roupas de couro e até mesmo um show de punk rock com sangue falso jorrando na plateia, você troca a narrativa de invasão ao lar (Black Christmas e Halloween falam por si só como exemplos do tema) pela quebra na sensação de segurança em ambientes LGBT+ que nós frequentamos.
Dentro daquele carnaval lotado de pessoas gays, lésbicas, bissexuais, gente fantasiada, drags e adeptos de cruising, um assassino à espreita na multidão que está apenas esperando seu primeiro vacilo para agir representa a invasão de um ambiente de acolhimento. Justamente por isso os assassinatos que acrescentam números à contagem de corpos do filme ocorrem em lugares bem pertinentes.
Não irei dizer quem, quando e como, mas você verá cabeças sendo decepadas dentro do banheiro, na pista de dança da balada, em um matagal, em vias públicas desertas e até mesmo dentro de uma casa, anda que não seja a residência da tradicional família estadunidense, todos eles ambientes que gays conhecem muito bem.

Hellbent apresenta uma sucessão de dramas de gay padrão, dramas de gays inseguros, hábitos de grupos de amigos, como o consumo de drogas, bebidas e a alta vontade de fazer sexo a qualquer momento, surtos de drag queens e até mesmo críticas à heteronormatividade, ainda que depois os mesmos personagens façam uso dela para se reafirmar.
E tudo isso funciona dentro do intuito slasher porque as mortes deixam de ocorrer e o filme sabe criar suspense quando necessário, trabalhando com a figura do seu assassino misterioso para mostrar uma dose de gore em várias cenas de morte. É prático, é básico e é efetivo, mas a coisa toda se amplia porque não acontece uma repetição previsível na amostra de personagens de slashers.
Não é como se o filme agisse como um grande ato subversivo dentro do cinema slasher ou da cultura queer de horror, até porque a intenção é fazer um slasher padrão e inserir um bando de gays ali dentro para ver o que acontece, mas pelo menos aqui os personagens são feitos para dialogar com um público LGBT+ e, com isso, Hellbent consegue causar algum impacto.
Isso porque Hellbent anda na linha tênue entre a quebra do conservadorismo slasher e o seu reforçamento quando conveniente, percorre os problemas gerados por priorizar a individualidade e ao mesmo tempo reconhece que é natural que todo mundo tome conta do seu próprio nariz em algum momento, apresenta uma situação onde o perigo pode estar em qualquer lugar quando você não está atento, bem como mostra que as pessoas também sentem algum tipo de atração pelo perigo e podem dar de cara com ele.
Ainda há espaço para mostrar a solidão sexual e afetiva que todos nós sentimos em algum ponto, ainda que seja banal, e claro, ele também investe na representação problemática de bissexuais como se fossem máquinas sexuais sedentas sem raciocínio lógico e mostra que no final das contas todo gay padrão vai usufruir dos seus privilégios, mesmo que seja só para se atracar com outro padrão - i was rooting for you, Tobey.
Não temos muita informação para saber sobre o assassino e suas reais motivações, mas quase sempre ele encurrala os personagens e comete seus ataques ao presenciar uma subjeção à normatividade e os vacilos de jovens gays um tanto quanto instáveis querendo viver suas vidas ao máximo naquela festa - Funciona como se fosse uma reinterpretação das regras definitivas de slashers que dizem que você não pode beber, não pode transar e não pode sair de cena dizendo que logo voltará, porém sem trabalhar com isso de forma heterocentrada.

Mesmo depois de anos desde o lançamento de Hellbent, alguns hábitos dos personagens ainda são repetidos por mim, por amigos meus e por várias pessoas com as quais eu me deparo por aí, e eu sei que algumas pessoas irão me entender quando eu defender esse filme como um entretenimento muito mais interessante só por ter gays dentro dele.
Nem tudo são flores e eu queria fazer igual ao assassino e decepar a cabeça do interesse amoroso do Eddie - Jake, um padrão machinho qualquer que nem é tão bonito assim mas vira a cobiça do protagonista e simplesmente não tem química alguma com ele, sendo bem sincero nem parece que ele está realmente interessado no garoto, mas seguimos em frente.
No final das contas, é bom ver um filme que trabalha com todos os momentos previsíveis que fãs de slashers amam assistir, mostrando que cabeças podem rolar quando você toma decisões burrinhas, não protege seus amigos ou está prestes a realizar o sonho da sua vida em um date - é gente, algumas pessoas nasceram sendo meio fudidas no amor mesmo. #JusticeForJoey!




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