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Carrie : O protagonismo queer na adolescência através do horror

  • Writer: Fefa
    Fefa
  • Oct 11, 2021
  • 5 min read

I never dreamed someone like you could love someone like me

Dada a fama adquirida pela personagem ao longo dos anos, eu acredito que todas as pessoas que cresceram na mesma época que eu possuíam alguma imaginação sobre quem era Carrie e toda a estranheza relacionada com sua existência dentro do horror - Para mim, ela era um medo de infância. Eu não consigo me lembrar dos motivos pelos quais eu temia a Carrie quando criança, mas era um medo grande a ponto de eu sempre fechar os olhos toda vez que o comercial do filme passava na televisão. Tão pouco sou capaz de explicar porque eu também me sentia atraído por aquela figura adolescente e colegial que era descrita como estranha.

Tal qual acontece com a personagem, minha adolescência chegou e eu passei a ver um número cada vez maior de filmes de horror por vontade própria, sendo que muitas vezes as escolhas para uma sessão de cinema em casa eram os filmes que passavam na televisão aberta toda sexta à noite - a maioria deles era bem ruim, mas esse hábito não deixa de ser importante para minha relação com o horror até os dias de hoje. Entre os filmes estava Carrie - Não era o Carrie do Brian De Palma. Era o remake de 2002 que o SBT gostava de reprisar a cada três meses junto de Jason X, o remake de A Hora do Pesadelo e vários outros filmes duvidosos que deviam ser baratos de comprar. E então, em algum momento da adolescência, eu reuni toda a minha coragem disponível e assisti. De cara eu não entendi porque eu tinha armazenado tanto medo daquela figura esquisita, mas pouco marcante. Dentro do meu imaginário sobre Carrie, tudo parecia mais assustador que o próprio filme que eu tinha acabado de ver. Porém eu não imaginava que existia outra versão da mesma história, um pouco mais antiga, que eu descobri ao xeretar sobre o filme de 2002 na internet.

Ao ver a versão de Carrie de 76 quase que sequencialmente ao remake, eu entendi o que realmente era o impacto de Carrie White por ter ficado desconfortável, desconcertado e desabilitado de uma maneira que poucos filmes conseguiram ao longo da minha vida. Para começar, há muita luz em Carrie. Literalmente. No sentido da iluminação chegar a incomodar os olhos enquanto você está assistindo. E isso para mim é muito significativo na minha relação com o horror. O filme abre com uma cena inicial onde o espectador adentra o vestiário feminino de uma escola, guiando-se pela iluminação extremamente clara e pela presença de várias meninas adolescentes correndo no banheiro e sendo filmadas por uma - infeliz - visão masculinizada e fetichizada da direção. No meio dessa cena está Sissy Spacek - magra, esguia, miúda, corcunda e introvertida - tomando um banho como em qualquer outro dia, até a sua primeira menstruação descer no chuveiro e deixá-la em completo desespero. Não sou metido o bastante para dizer que entendi a cena pela primeira vez que assisti o filme sendo um pirralho ignorante sobre relações humanas, mas foi muito marcante presenciar esse primeiro momento do filme por agora eu entender que a abertura da história era uma cena traumática da protagonista sem saber como lidar com o próprio corpo e sendo ridicularizada por quem estava ao redor dela na escola.

A história de Carrie que se segue após esse evento traumático é tão famosa que podemos citá-la pulando de frame em frame do filme. É como se Carrie fosse uma obra de retalhos repleta de elementos-chave que vão se conectando por meio de um roteiro efetivamente adolescente. Você pode destacar diversas cenas de Carrie para falar sobre o filme, mas você nunca consegue ignorar o que realmente liga as pontas desses momentos marcantes: um roteiro sensível o bastante para entender que não há nada de errado com Carrie White, mas há muito ódio ao redor de sua figura enquanto a personagem encara uma jornada de crescimento, descoberta, conquista de independência e desenvolvimento de sexualidade.

Assistindo Carrie após crescer, me entender como uma pessoa adulta e ser obrigado a seguir com a vida antes de lidar com uma série de eventos passados de uma adolescência confusa e solitária, talvez parte do meu medo pré-concebido sobre Carrie White fosse um efeito do medo do crescimento. No filme do De Palma não é mostrado, mas podemos imaginar que a personagem central sempre teve problemas em sua vida. Porém foi ao crescer que os problemas se amplificaram e colidiram com o constante anseio pelo protagonismo em sua vida - um protagonismo que sempre foi negado e retido pelo mundo. Foi preciso que Carrie descobrisse e pudesse usar forças desconhecidas por ela própria para encontrar sua identidade, levantar sua voz, concretizar muitos de seus desejos e se vingar. Mais ou menos da mesma forma que qualquer outra pessoa deseja, sem a parte da telecinese sobrenatural. Não ser a menina mais bonita e popular da escola, não estar inserida em um grupo de amigos, não ser amada ou se sentir querida de verdade e não saber como lidar com instintos básicos da humanização de uma pessoa são alguns dos horrores presentes em Carrie. Assim como são horrores presentes na vida de pessoas queers, como eu.

Eu nunca sofri bullying ou passei pelos exatos mesmos horrores que a Carrie passou, mas há uma vivência de adolescência com similaridades na qual eu sempre estive deslocado e sujeito a me sentir mal pelas coisas mais banais do mundo que me eram negadas. Não foi fácil me entender como uma pessoa queer ao mesmo tempo em que meu corpo mudava radicalmente e as pressões racistas aumentavam sem que eu as entendesse, tudo isso no mesmo instante em que as pessoas ao meu redor vivenciavam uma adolescência mais prática - como eu queria. Assim como em Carrie, havia muita luz em minha adolescência. Essa luminosidade angelical, exacerbada e incômoda que faz os olhos cerrarem na mesma medida em que atrai o foco de visão. Dentro do cinema de horror, quando essa luz está presente, o significado para mim é o de que traumas e vivências ruins podem emergir dos diversos momentos felizes que idealizamos ao longo das nossas vidas. Há apenas um momento de felicidade para Carrie em sua história, coincidentemente o mesmo momento idealizado pela personagem - A clássica cena do baile, um momento que tanto é catártico para a adolescente em toda a sua luz, quanto é catártico para sua vingança.

Carrie é uma obra onde o sobrenatural é uma catarse de eventos. É o cinema de horror na sua forma mais pura, onde você se espelha e se preocupa com a Carrie White. Afinal, nada do que acontece em sua história é sua culpa ou foi provocado por ela. Ela apenas vive e tem o protagonismo em sua vida tirado de si através de cada violência, trauma e evento infeliz causado por terceiros. Todos que já assistiram Carrie em alguma versão cinematográfica sabem que o desfecho nunca é feliz, mas sempre irá possibilitar que a garota estranha assuma o protagonismo de sua vida. Nem sempre a vingança é tão assustadora, as vezes ela também é reconfortante e reconhecível.


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