A Nightmare On Elm Street, A Hora do Pesadelo Parte 2 : A vingança homoerótica de Freddy Krueger
- Fefa

- Jun 18, 2021
- 10 min read
Updated: Jul 6, 2021
One, Two, Freddy's coming (out) for you

Quando você se torna um fã de horror, se dedicando a ver filmes, ler críticas, assistir documentários, pesquisar sobre bastidores e conhecer a história que originou toda essa cultura, inevitavelmente alguns clichês, características e tradições do gênero acabam grudando na sua mente.
No meu caso, os slashers foram a minha porta de entrada para o horror. Assisti Pânico 2 quando criança junto de algumas primas e me lembrava bem pouco do filme conforme o tempo se passou, porém assisti a franquia inteira quando era adolescente e percebi que ainda tinha familiaridade com muitas das cenas.
Eu segui vendo cada vez mais filmes de terror e ainda tenho o slasher como o meu subgênero favorito do horror, o que eu creio que ocorra pelos seus vários lugares comuns, pela simplicidade nua e crua que muitos possuem no roteiro, pela metalinguagem que eles usam e que conversa com a sociedade, por marcarem a existência de diversas produções do cinema independente, mas sobretudo pela tensão constante de ver facadas sendo distribuídas em tela. No entanto, nada do que eu já sabia sobre slashers tinha me ajudado a prever A Hora do Pesadelo 2.

As sequências de filmes de terror já chegam ao mundo malditas. O receio de ver uma extensão de um primeiro filme excelente ocorre com certa frequência no horror devido ao grande número de segundos capítulos fracos, desnecessários e ruins, mas há exceções - O Pânico 2 citado acima é um exemplo prático de todos os lados bons e ruins de sequências de slashers, destacados ao longo de um roteiro metalinguístico e sarcástico.
Tendo em vista que A Hora do Pesadelo é um clássico definitivo da história do horror e o Freddy Krueger está eternamente no hall de grandes vilões dos slashers, realizar uma sequência é um caminho óbvio que quase ninguém pediu para acontecer lá na década de 80 quando já havia alguma saturação no subgênero de assassinos mascarados com armas brancas.
E se sequências já enfrentam um efeito crítico severo do público convencional do horror assim que chegam aos cinemas, esse cenário crítico fica pior ainda quando o rumo pelo qual a direção do segundo filme se encaminhou não é feito para essa fatia de espectadores - ainda que inconscientemente, ou nem tanto.

A Hora do Pesadelo Parte 2 - A Vingança de Freddy é o segundo filme de uma longa franquia que gira em torno do Freddy Krueger e sua incansável missão de matar as crianças da Rua Elm.
Assim como em outros inúmeros casos, essa sequência existe porque franquias de slasher davam dinheiro e muitos dos vilões icônicos do horror são eternizados na mente do público a partir do momento em que ocupam as telas de cinema à exaustão. Com o Krueger não foi diferente.
Wes Craven, roteirista, diretor e criador do Freddy Krueger e do primeiro Pesadelo, nunca quis fazer do seu filme uma franquia. Contudo, a New Line Cinema achou o seu pote de ouro dentro de um slasher muito bem sucedido na época de lançamento e seguiu com A Vingança de Freddy como um projeto próprio sem a presença do Sr. Craven.

Nesse segundo Pesadelo, Jesse Walsh é um adolescente comum que se muda para a casa em que a família da Nancy Thompson - a protagonista anterior da franquia - morava no primeiro filme, cinco anos após os acontecimentos originais.
O garoto sofre com pesadelos recorrentes envolvendo a aparição de uma figura monstruosa com cicatrizes de queimaduras que o persegue de diferentes formas - nós sabemos quem é o monstro desde o início pois a Tina Gray do primeiro filme passou pelo mesmo sufoco, porém o Jesse só sabe disso quando lê o diário da Nancy e se depara com relatos de pesadelos muito semelhantes aos seus.
A conexão entre os dois primeiros filmes da franquia começa e se encerra aí. Desse ponto em diante, e mesmo antes disso, o roteiro opta por se construir como uma história quase que independente dos eventos iniciais e aborda a figura do Jesse como um personagem no centro das intenções do Freddy Krueger - que agora é muito mais verbal, sádico, irônico e debochado.

Slashers são conhecidos por seus diversos clichês narrativos que ajudam na construção da trama. Muitas vezes eles são subvertidos, em outras ocasiões eles exercem sua função conforme esperado, mas nem por isso eles não podem ser muito bem trabalhados. A figura da Nancy no primeiro filme é a de uma garota ativa, combatente e interessada em sobreviver aos horrores causados por Krueger, se mostrando o fio condutor mais forte no roteiro de A Hora do Pesadelo de 84. Ela se encaixa perfeitamente nos clichês narrativos para ser uma garota final que todos amam e torcem, porém também é muito bem construída para se tornar uma personagem que quebra algumas tradições dos anos 80 ao preferir lutar para sobreviver ao invés de ser uma garota em perigo que precisa ser resgatada. É claro que uma boa parte do público nunca se importou com as nuances mais complexas envolvendo a construção da Nancy no primeiro filme, porém essas mesmas nuances voltam para morder o calcanhar de todos os fãs de slashers quando eles se deparam com o segundo capítulo da franquia.
Substituir um protagonista carismático e marcante não é uma missão fácil, mas é algo que pode acontecer e funcionar quando você se atenta muito bem aos gostos e exigências de seu público.
Trocar a Alice pela Ginny foi natural em Sexta Feira 13, mudar o foco da Laurie pra Jamie foi uma boa decisão em Halloween, mas tirar a Nancy e colocar o Jesse, um homem, não foi uma escolha feita para agradar conveniências do público comum de horror que chegou em A Hora do Pesadelo no ano anterior.
Ainda que exista uma personagem feminina em destaque no filme - a Lisa Webber é linda, simpática, doce e a típica namorada de um personagem masculino - a história central ainda é sobre os pesadelos do Jesse Walsh.
Quando comparado ao seu par feminino no filme, o Jesse passa longe de um protagonista masculino típico no cinema. Tímido, introvertido e deslocado, sofrendo de problemas de insegurança amorosa e sexual, o personagem nada tem a ver com outros homens que só entram em slashers para tentar transar com as garotas e morrer.
Jesse sofre o pesadelo interno de se deparar com o Krueger inúmeras vezes em seus sonhos, e o filme faz o trabalho de ir escalonando a presença do Freddy na vida do garoto ao torná-lo cada vez mais ameaçador e disposto a possuir o corpo do Jesse por seus próprios interesses - algo ligeiramente diferente das suas intenções no primeiro filme que envolviam matar a Nancy e seus amigos um por um.

Ser um personagem que é vítima da situação no cinema não é um grande problema para o público de horror, contanto que o personagem seja uma mulher. Quando a vítima é um homem - que grita, toma sustos e se vê ameaçado por outra figura masculina - subitamente se torna um problema optar por esse tipo de desenvolvimento de trama.
O público de horror, purista de slasher, sempre vai gostar de ver uma Scream Queen em cena, porém um garoto final que emula muitas das características de personagens femininas é repudiado na mesma hora.
Se por um lado a Nancy Thompson é uma personagem agente da narrativa desde o primeiro susto e que cativa o público sendo uma adolescente feminina, por outro o Jesse Walsh é uma figura retraída que precisa lidar com seu monstro interior - um Freddy Krueger capaz de tomar posse de seu corpo para cometer assassinatos que lhe oferece poucas rotas de fuga, e muitos momentos de tensão e gritaria.

Eu acho muito interessante como o segundo Pesadelo é quase um remake do primeiro filme, com adições que diferenciam os dois filmes e algumas guinadas no roteiro que colocam o Jesse como figura aterrorizada.
Experimente observar de perto as situações e você vai encontrar uma construção de personagens bastante similar entre Nancy e Jesse: os dois são atormentados em seus pesadelos, moram na mesma casa na Rua Elm, se deparam com a figura do Freddy em seu porão por várias noites, veem seus amigos sendo mortos por um assassino dos sonhos e saem de adolescentes comuns para vítimas tentando sobreviver aos seus horrores.
Graças a uma ambientação que existe em A Hora do Pesadelo e que permite que quase tudo seja possível de acontecer, os dois protagonistas precisam encarar um Freddy Krueger que irá surgir de diferentes formas, sendo que para o Jesse pode ser por meio de possessão, ilusões de terror corporal, momentos de terror psicológico e através de uma grande dose de subtexto homoerótico.
Há uma série de elementos selecionados a dedo para dar mais corpo ao slasher e construir uma identidade própria para o garoto final do filme e sua parceira feminina em cena, fazendo com que a Lisa seja muito mais ativa e preparada para resgatar o Jesse do que costuma acontecer nas posições que papéis masculinos e femininos ocupam no horror.
Embora essa característica de desenvolvimento dos personagens não possa ser considerada homoerótica, outros elementos do filme te jogam na cara as reais intenções da trama, já que em dado momento o Jesse visita um bar gay no centro da cidade - a primeira vez que eu entrei na ZIG Club foi igual a esse momento - em outro ele foge da pool party da Lisa após uma tentativa de sexo e vai até a casa do melhor amigo pedir para dormir com ele, e ainda há a cena onde o protagonista dança no quarto e fecha uma gaveta com a bunda.
Quanto à relação entre vítima e serial killer, meu take favorito sempre será o do Freddy Krueger falando dos negócios a serem resolvidos entre ele e o Jesse. É uma longa cena na qual o assassino fica acariciando o rosto do Jesse com suas garras - originalmente, ele faria o garoto chupar suas garras, mas um cara da maquiagem decidiu proteger o ator Mark Patton dessa cena pois ela fazia parecer que ele estava praticando sexo oral.
Todos os detalhes milimetricamente escritos e filmados nesse filme são ridiculamente homoeróticos, e eu digo isso porque perco a conta de quantos enquadramentos do volume da cueca do Mark Patton eu vejo, bem como da quantidade de vezes que ele aparece usando apenas sua tímida cueca slip na cama, derretendo de suor.
Nós também temos cenas de bundas masculinas de fora - a do Patton é muito bonita, aliás - temos um treinador escolar de educação física adepto de cruising que frequenta bares gays, temos um melhor amigo e rival que levanta uma tensão sexual sempre que está em cena com o Jesse - um prato cheio para qualquer brotheragem ou bromance - e um Freddy Krueger em seu estado mais cru, interpretado por um Robert Englund que entende a real natureza de seu personagem e sabe exatamente o que deve fazer.

A relação entre a Nancy e o Freddy Krueger é recheada de nuances sexuais no primeiro filme - ao ponto de vermos uma língua saindo do telefone e lambendo a boca da garota em uma cena. É uma sexualização bizarra e horripilante, mas que se insere entre o retrato sexual mais comum do horror: cisgênero e heteronormativo.
Quando a sexualidade retratada é homoerótica, ficam apenas os sentimentos de bizarrice e negação que se devem mais a esse contexto do que ao nojo de um assassino tendo contato físico com sua vítima. E é aí que está a genialidade do Robert Englund ao entender que o Freddy Krueger, antes de tudo, na verdade nua e crua, é um pedófilo.
Não se trata de sexualizar a perseguição entre um serial killer homem e sua vítima mulher, mas sim de pegar nuances sexuais e inserir dentro de um contexto - que deve ser repudiado - no qual um pedófilo irá se interessar por personagens mais novos independente de seu gênero, seja a Nancy ou o Jesse. E a interpretação do ator faz toda a diferença pelo tratamento aos dois personagens ser o mesmo.

Nudez masculina, o terror da introversão social, roupas de couro, ambientes mal iluminados e cheios de fumaça, tensões sexuais desconfortáveis entre homens e uma boa dose de terror com efeitos práticos muito bons, jump scares bem feitos e mortes por retalhamento de um slasher não irão agradar um espectador conservador comum do horror, mas são motivos pelo quais A Hora do Pesadelo 2 se tornou um dos meus filmes favoritos.
Ele está deslocado no universo da franquia devido a péssima recepção em seu lançamento no ano de 85, porém essa característica em torno do filme acaba servindo de desculpa para que eu convença as pessoas a assisti-lo como um capítulo separado, que sabe de onde está vindo - um clássico - mas consegue se distanciar do legado para criar uma história própria que não é feita para uma audiência ignorante.
A Nancy foi revolucionária dentro de um subgênero por ser uma adolescente independente que não é retratada convenientemente como uma jovem pudica a espera de seu salvador, tão menos como uma personagem hipersexualizada que só existe para transar e morrer.
Já a transgressão do Jesse nesse filme está em sua passividade - sem duplo sentido - e na sexualização aflorada e intencional que toca no pavor masculino de não ser másculo.

David Chaskin, roteirista desse filme, por muitos anos negou que A Hora do Pesadelo 2 tivesse qualquer tipo de subtexto gay e homoerótico. Jack Sholder, diretor do filme, ainda hoje declara que nunca pescou nenhuma segunda intenção queer que pudesse estar mesclada ao roteiro que recebeu para gravar. Já Mark Patton, protagonista que estava em uma escalada de ascensão em Hollywood, serviu de bobo da corte para o público de horror dos anos 80 e sofreu com repressões homofóbicas após o lançamento do filme.
Em meio às críticas que foram se espalhando no boca a boca sobre como A Hora do Pesadelo 2 era detestável e arruinava o Freddy Krueger e o legado do primeiro filme, Chaskin sustentou o argumento de que não escreveu o filme para que ele tivesse um subtexto gay, jogando a culpa dessa percepção do público sobre o filme em cima da interpretação de Mark Patton, na época, um ator homossexual e não assumido na indústria.
Chaskin ainda fez piadas desagradáveis das mais variadas ao longo dos anos, dizendo inclusive que o filme era na verdade homofóbico, tendo em vista que um adolescente atormentado por seu monstro no armário é curado quando recebe o beijo de uma mulher, até enfim ser posto contra a parede por Mark Patton e se ver obrigado a confirmar que tudo que vemos no filme foi escrito de maneira intencional e foi ampliado pelo resultado final da produção.

Não trato A Hora do Pesadelo 2 como um grande ponto de virada na representatividade de personagens gays no cinema de horror, ainda mais quando analiso o histórico de declarações problemáticas de seu roteirista - hétero - e a negação constante alegando inocência para não assumir o rolê de seu diretor - também hétero.
Ainda assim, a presença de um protagonista que não é masculinizado, interpretado por um ator gay, e a inserção intencional de um subtexto homoerótico que se estende do começo ao fim do filme, sabendo onde quer chegar - mesmo que funcionando numa linha tênue entre a representação e o queerbaiting - fazem valer a pena destacar a existência do pesadelo mais controverso do Freddy Krueger.
Se você nunca viu A Hora do Pesadelo 2, procure assisti-lo tendo em mente as reais intenções do filme e se livrando de qualquer preconceito com sequências. Há vários pontos excelentes no conteúdo de horror em suas diversas formas que são apresentadas nesse filme. Aproveite também para ver o documentário Scream, Queen! My Nightmare on Elm Street sobre a vida do Mark Patton e o contexto do cinema de horror em meio a ondas conservadoras e homofóbicas nos anos 80. Ambos merecem a conferida.
Sendo uma pessoa LGBT+ e fã de horror, A Hora do Pesadelo Parte 2 - A Vingança de Freddy foi um filme que fez com que eu me sentisse menos sozinho dentro do vasto universo dos slashers. Talvez ele faça com que você se sinta da mesma maneira devido aos lugares comuns que apenas algumas pessoas compreendem. Afinal, o Freddy Krueger é o sonho de todo garoto e também o maior pesadelo.



Concordo com tudo o que disse.
Oi